A
vida é curta mas Espadinha é grande.
É claro que um dia destes tínhamos de falar com Vítor
Espadinha.
E é claro que ele estava à espera da entrevista.
Por:
Fernando Alvim e João Macdonald
Foi em Junho que o conhecemos. Vítor Espadinha, 58 anos, um
mito moderno acessível, conversador, directo, com cinco filhos
e a mesma mulher há 14 anos.
Há umas duas décadas, Espadinha era o homem de "Recordar
é Viver". Foi quando a bombazine tinha outro peso na nossa
vida, Zé Gato era o verdadeiro latin looser, Tozé Brito
brilhava nas bôites com Paulo de Carvalho e o seu "Olá,
Então Como Vais?" e o SG Gigante tinha mais pinta que
Marlboro.
Em vésperas de um ressurgimento em força, o ícone-Espadinha
está cheio de projectos e consolida a fórmula tripla
de um grande nome dos palcos: incorformado, artista e sedutor. Ora
vejam.
O INCONFORMADO
365 - O Vítor Espadinha vai regressar, não
é?
É verdade, estive a descansar uns tempos porque acho que
um actor, um artista deve ter o seu timing e por isso decidi regressar
agora. Em Julho vou fazer três espectáculos em Moçambique,
vou matar saudades, rever aquilo que deixei há 35 anos. Vivi
lá de 56 a 64, oito anos e tal, foi ali que eu comecei a
minha vida. Vai me dar um gozo do caraças e por isso agarrei
esta oportunidade com as duas mãos. Foi lá que eu
fiz a tropa, estive preso dois anos no forte de Moçambique.
365 - Porquê?
Porque eu sempre fui contra aquilo. Puseram-me lá obrigado
e eu não matava ninguém. Mandavam-me formar pelotão
e eu não formava nada e quando passava o brigadeiro para
bater continência eu mandava-o prò caralho.
Eu sempre fui muitto inconformado com tudo, pode ser um defeito,
mas não há nada a fazer.
Isto parece um rebanho, andam todos uns atrás dos outros,
por isso não me dou com o meio, não vou a festas e
tento manter-me afastado. Vocês já alguma vez leram
a "Caras"? Já viram o ridículo daquilo?
Reparem nas legendas debaixo das fotografias: «D. António
de Melo com a sua prima» e não sei o quê. Tem
algum jeito? Eu não tenho nada a ver com aquilo. Olhem, vou
contar-vos uma novidade. Noutro dia, há cerca de seis meses,
porque precisava de um documento, decobri por coincidência
que tenho um cadastro invejável como perseguido pela PIDE.
Isto é uma coisa! Ando a ver se encontro aí algum
jornalista, num jornal diário, uma coisa grande, para exibir
os mandatos d ecaptura. Isto é uma coisa espantosa.
365 - Mas porque é que a PIDE o perseguiu?
Lá está, porque eu sempre fui um inconformado com
tudo e os gajos pensavam que eu era algum futuro líder de
um partido. Eles têm cartas que eu enviava para a minha mãezinha
quando estava em Londres, cartas que eu mandava para o pessoa da
Sociedade Portuguesa de Autores, mandados de captura, mas não
me encontravam. Sabia o teatro em que eu estava a trabalhar em Londres,
sabiam tudo. É uma coisa espantosa. Eu tenho esses documentos
comigo e se um dia vocês tiverem um colega vosso... - olhem,
o "Jornal de Notícias", por exemplo, era uma coisa
porreira para pegar nisto.
365 - E, como inconformado, como vê a actual situação
política portuguesa?
Eu, desde o 25 de Abril, execpetuando o PCP, por quem tinha uma
grande admiração, acho que já votei em todos.
Não tenho nenhum partido que se identifique comigo. Acho
o PS e o PSD absolutamente iguais. O PCP já passou de m0oda.
Não tenho nenhum partido. Votei Mário Soares porque
gosoto dele e porque foi meu professor no Colégio Moderno.
O ARTISTA
365 - Corre a notícia de que o Vítor Espadinha
vai ter um novo programa na televisão. Como vai ser isso?
Por enquanto não sei. Ando a pensar. Tenho algumas propostas
mas também tenho muito medode voltar. Está tudo muito
pimba. A RTP está muito amorfa, se bem que agora penso que
há uma nova esperança com a TVI. Vamos lá ver
que tipo de televião é que vão fazer. Eu, por
mim, quero uma estação onde me deixem fazer uma coisa
difrente num meio onde está tudo comprado pelas notas, com
muito gays, muitos gays, muito dinheiro para pôr um lagarto
em cima da cabeça. É muita areia para a minha camioneta.
365 - Quando é que foi a última vez que trabalhou
na TV?
Foi em 89, 90, era um programa que se chamava "para Variar",
a quem as pessoas chamavam curiosamente "Roda o palco",
porque eu passava a vida dizer «Roooodaaaa o paaalcoo»
[risos], e rodava!
365 - Mas e o próximo programa?
Vai ser à volta da música, do teatro, à volta
de tudo. Embora eu tenha uma certa cultura, não sou muito
de fazer coisas complicadas porque acho que as pessoas precisam
é de se divertir.
365 - E o que anda a fazer mais?
Neste momento estou a preparar um disco completamente difernte,
embora com o meu estilo, mas completamente diferente. Uma música
simplezinha porque o português é surdo. Só com
originais e grandes poetas.
365 - Que poetas?
Eu gosto muito do Tozé Brito e do Fanha. São vários.
Estou a alinhar isto, tenho três canções e ainda
me faltam algumas para a tingir as 12 que são precisas para
o álbum, que está pronto lá para Stembro, Outubro.
As letras já tenho todas, embora ainda não saiba qual
vai ser a editora.
Erntretanto, fui convidado para ir para o teatro nacional. Em princípio
devo ir porque tenho muitas saudades do teatro. Toda a minha vida
fui actor. Fiz o "Mostra-me a Tua Piscina" no Capitólio
durante dois anos, estive em cena com uma comédia no Laurinda
Alves também durante dois anos e quando fui contratado para
o Casino Estoril por 15 dias, acabei por ficar cinco anos todas
as noites a fazer a mesma coisa! Agora não, fazem-se peças
para oito dias e eu não sou actor de oito dias.
365 - Voltemos algumas décadas atrás. Lá
pelos anos 70 você foi durante muito tempo a verdadeira estrela
do easylistenning português. «E recordar é viver...».
Vê-se como um ícone daquela altura?
Não, de maneira nenhuma. Eu faço as coisas apropriadas
para o seu tempo. Apenas recordo que as pessoas depois do 25 de
Abril ficaram sem coragem para as fazer. Antigamente, mesmo com
a censura em cima, era muito difícil dar subentendidos em
coisas assim. Deixaram acabar com o teatro de revista e a comédia
de boulevard, o que para mim é um grande desgosto. Agora
fazem-se peças e eu não as percebo. Outro dia fui
ver uma a um teatro pequenino. Estava eu e mais dois, um deles a
dormir. Sinceramente, eu não percebi nada do que eles estavam
par ali a dizer. Falta-lhes, não sei... Este país
é complicado, este país é complicado...
365 - Como é começou a sua carreira?
Verdadeiramente, comecei como jornalista no jornal "A Tribuna",
de Lourenço Marques, e no Rádio Clube Português.
Depois fui para Inglaterra, onde estive 12 anos, e quando finalmente
vim para Portugal o meu primeiro emprego foi no "Diário
Popular", onde fazia uns artigos, umas críticas de cinema
e ond eo meu patrão era o Pinto Balsemão.
365 - Ele nunca o convidou para a SIC?
Não. O Pinto Balsemão deu as rédeas daquilo
ao Rangel, acho que ele não se mete nestas coisas.
365 - Como chegou do jornalismo à música?
Não, eu passei ao teatro. Quando vim para Lisboa, depois
de já Ter feito teatro em Moçambique, estreei-me em
66 no Teatro Villaret com uma comédia ao lado da Eunice Muñoz,
Rui de Carvalho, Rogério Paulo e João Perry.
365 - Grandes nomes.
Sim, numa altura em que uma peça estava em cena durante um
ano, dois, às vezes mais.
O SEDUTOR
365 - O teatro ajudou-o a seduzir muitas mulheres?
Mais ou menos. Não sou muito bom em contas, mas tenho muitos
filhos. Vivi sempre a minha vida e não acredito que algum
homem possa viver sem uma mulher. Eu acho que não, não
sei... esta coisa de brincar com as pilinhas... também nunca
percebi lá muito bem.
365 - Tem muitas fãs?
Naquela altura, quando os discos estavam a bater, acredito que sim.
Agora já não.
365 - Acha que está a perder o charme com a idade?
Não, pelo contrário, estou cada vez melhor. Não
sei o que é, sou como o vinho do Porto. Tenho 58 anos mas
a mesma tesão dos mesu 20. É uma coisa incrível.
Fumo, bebo e sou heterossexual. Tenho uma sáude do caraças
e raramente fui a um médico.
365 - Nunca sentiu a dor de rejeição?
Já, em miúdo. Apanhei uma grande lição
com a minha primeira paixão. A mulher não podia comigo,
olhava para mim como se eu fosse o gorila que está a trabalhar
com o João Baião. Desde aí, nunca mais. Fiquei
completamente vacinado.
365 - O que pensa do amor?
Sinceramente... eu gosto é de foder, porra! Vocês queriam
mais franqueza do que isto?
365 - Já fez amor ao som das suas próprias músicas?
Ao som das minhas não me lembro, mas já fiz com do
Julio Iglesias, era uma música que se chamava "Hey":
[cantando] «Hey, no vayas presumindo por aí...»,
e estavamos todos nús.
365 - Era ao Iglesias que você costumava ser comprado.
Por esta ordem de ideias, alguma vez o acusaram de ter um filho
ilegítimo?
Já me apareceu uma mulher nos Açores, na ilha do Faial,
a dizer que tinha um filho meu e até disseram isso na rádio.
365 - E era verdade?
Não sei, como deveria Ter quatro ou cinco iguais a mim, parti
do princípio que estava a mentir.
365 - Normalmente, elas confiam em si?
Sim. Aliás, eu tenho mais amigas mulheres do que homens.
No papel já me casei duas vezes, tive muitos ajuntamentos,
todos de cinco, seis, sete anos. Com a mãe do meu filho mais
novo já estou há 14. A verdade é que sou cem
por cento quando gosto de uma mulher.
365 - Liga muito à sua imagem?
Não, nada, não ligo nenhuma. Eu tenho 120 fatos em
casa, do programa de televisão onde todos os dias me davam
um, e nunca os vesti. A imagem, a aparência, não ligo
nada a isso, mas dou importância à imagem artística,
isso sim. Não repito duas coisas iguais, tenho muito cudidado
com o que faço, há programas de televisão onde
não vou, recuso-me a aparecer na televisão com um
bicha ao meu lado e um macaco atrás de mim. Porra, isso era
uma vergonha do caraças.
365 - Quais são os seus artistas favoritos?
Franceses, essencialmente. Sou fã incondicional da música
francesa, gosto de Charles Aznavour, Jacques Brel, Leo Ferré.
Gosto dessa gente toda desde miúdo.
365 - O que é que ainda não fez na vida?
Gostava de cantar em espanhol. Ando à procura de um poeta.
Um gajo que escreva poemas a sério, tem que ser um daqueles
craques que saiba mesmo o que está a fazer. Música
não tenho problema, porque tenho quem ma faça.
365 - A sua máxima? Quantos mais bichas, melhor...