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- Quando preenche o impresso onde é necessário
colocar a profissão, o que é que escreve nesse espaço?
SÁ LEÃO - É que
eu também não sei... não está legislado.
É que eu não sou, de maneira nenhuma, um realizador.
Não tenho curso nenhum, jamais irei ofender quem o tem. O
que eu posso pôr é... depende... é que eu faço
outras coisas. Além disso, fiz músicas para os Excesso
e para outros grupos portugueses... e letras, mas com outro nome...
365 - E esta coisa dos filmes? Começou
no liceu com uma câmara em punho a entrar no balneários
das raparigas?
SÁ LEÃO -Não,
de maneira alguma. Nessa altura só queria jogar a bola e
dançar... era a altura do breakdance. O que surgiu foi que
eu tinha vindo trabalhar como segurança numa sex-shop que
era também um peepshow. É um sítio onde há
cabines, quer de vídeo quer de mulheres e homens ao vivo,
onde fazem striptease, sexo ao vivo e sexo lésbico. Trabalhei
aí como segurança. Mas depois passei para lojista,
como falava com os clientes sobre aquilo, e interessei-me. E comecei
a reparar que existia uma grande procura de filmes portugueses.
Não estou a dizer que não havia [filmes portugueses].
Já havia antes de mim e há agora e continuarão
a haver. Mas havia uma certa lacuna no mercado de filmes totalmente
diferentes. Falei com um grupo de amigos... ninguém acreditou,
e o filme saiu a crédito. Ou seja, «eu não tenho
dinheiro pra pagar a ninguém, ganho tanto como vocês.
Se der, dá pra todos». Fiz isso, agarrei na cassete,
fui bater às editoras, porta em porta, e fiz o negócio
com uma editora para um filme. Se aquele filme eventualmente corresse
bem, então, a partir daí, faríamos mais. E
na editora também me disseram, toda a gente me disse, «Olha,
o filme assim não dá... não tens muitas situações
de sexo explícito.» E eu disse «Mas nisso eu
jamais vou conseguir competir com os internacionais porque eles
põem cinco a seis mulheres e vários homens no filme
e nós não temos em Portugal orçamento para
isso». E, então, optei por fazer o que se faz em qualquer
negócio. Não consegues concorrer com a qualidade que
o mercado impõe no momento, então optas pela diferença.
Foi o que eu fiz. Perdoe-me o termo, fiz um filme bochado, em que
fui ao mercado comprar hortaliças. Pimentos, tomates, frangos...
e improvisei por aí. Tem pouquíssimas cenas de sexo
mesmo explicito. Tem é muita imaginação e foi
por aí que o filme triunfou. Foi pela diferença. Ainda
hoje é o filme que eu tenho que mais vende e que se chama
«Capitã Roby».
365 - Triunfou pela originalidade,
com o uso das hortaliças, mas nunca tentou fazer filmes um
pouco mais arrojados? Com coprofilia* ou com animais?
SÁ LEÃO -Jamais... isso
é ir contra os meu princípios... Animais, pedofilia...
e essas aberrações. Isso vai contra os meus princípios.
Eu faço filmes para divertir as pessoas, para estimular o
ser humano no seu mais puro lado carnal. Isto é uma coisa
que já vem da pré-história. Os australopitecos
já desenhavam não só as caçadas nas
cavernas como também actos sexuais. E com o evoluir dos tempos
chegámos à era do vídeo. E agora com o computador
e sabemos lá o que virá amanhã. Então...
eu opto pela diferença. Porque não consigo concorrer
com os orçamentos de produção que as pessoas
lá fora têm. Então, vou pela diferença.
*fetishe sexual em que a excitação obtém-se
com actos escatológicos: defecar ou urinar durante o acto.
365 - E deixou de fazer filmes porquê?
SÁ LEÃO -Deixei porque,
primeiro, estava psicologicamente afectado...
365 - E a mãe não gostava
muito da ideia, não?
SÁ LEÃO -Não,
não tem a ver com isso. Eu acho que os nossos pais devem
ficar orgulhosos dos filhos trabalharem e esforçarem-se para
que possam contribuir para a sociedade. Coisa que contribui. Se
está legislado, eu paguei o que tinha a pagar sobre isso.
Agora, na pornografia paga-se mais do que noutros sectores e nota-se
uma hipocrisia da parte legislativa. A minha mãe só
tinha de se orgulhar. É claro que não vai ver os meus
filmes, eu não lhe peço isso. Jamais lhe iria pedir
isso... a gente nunca fala sobre isso. E eu acho que ela, hoje,
ainda não entende muito bem. Mas não é por
aí que eu quero ir. A sociedade tem de compreender que, se
está legislado, eu não fiz mal a ninguém! Eu
não compro empresas e corto-as ao meio para depois repartir
e desempregar toda a gente e depois abrir noutro lado... Noutro
lado, com outro nome, e continuando a aparentar o nível de
vida que sempre aparentei: casa no Algarve, monte no Alentejo...
Esse tipo de vida que muita gente aparenta... Isso é que
poderá, se calhar, não ser orgulho para a mãe
desses senhores. Nunca fiz mal a ninguém, nunca coagi ninguém,
sempre respeitei as leis do mercado no país onde estou.
365 - E, afinal, parou de filmar porquê?
SÁ LEÃO -Psicologicamente
estava afectado. Além de trabalhar nesse peepshow também
trabalhava à noite como gerente de casas de striptease. Então,
cheguei ao ponto de estar a jantar e as pessoas a fazerem sexo à
minha frente... aquilo já nem me dizia nada. E eu, com a
parceira que tinha, comecei a visualizar essas cenas. Se trabalhar
numa fábrica de chocolates, está constantemente a
sair chocolate, chocolate, chocolate... às vezes, nem lhe
apetece... o cheiro... depois já nota uma certa indiferença.
365 - E isso aconteceu-lhe com o sexo?
SÁ LEÃO -Sim, aconteceu
comigo. Ao ponto de eu estar a ter relações, pessoalmente
na minha vida privada, e estar no acto sexual a visionar certas
imagens de trabalho. Já misturava ficção com
a realidade... e resolvi parar. E por outro motivo pessoal, que
poderemos falar noutra altura... mas o principal foi este. E outra
coisa. Eu gosto de novo projectos e sou um homem ambicioso. Acho
que sem ambição não vamos lado nenhum. Mas
respeito sempre os passos do meu concidadão. Sei até
onde posso ir. Jamais irei interferir no espaço de alguém.
Mas não sou homem de ficar em casa à espera que o
telefone toque. Vim da pornografia, sei que ainda tenho lá
o carimbo, mas, a pouco e pouco, estou a conquistar outro. É
isso que eu faço, passo a passo...
365 - E as mulheres portuguesas são
boas actrizes porno?
SÁ LEÃO -Daquilo que
eu vi, o mais difícil são os homens. A experiência
ensinou-me que se eu precisar de dois homens eu tenho de levar seis
ou oito... porque é muito difícil manter a erecção.
Para uma mulher é relativamente fácil. É só
o aspecto psicológico. A mulher tem de estar preparada psicologicamente.
Se ela disser, «Sim, eu vou fazer», faz. Não
há problema nenhum. Passa um bocado de lubrificante, mesmo
que esteja fria, e depois o homem é que tem de fazer tudo.
O homem é que tem de estar concentrado e tem de levar comigo
a dizer «Pá, chega pra lá a perna, não
podes estar assim... põe-te noutra posição».
Enquanto a mulher, se for preciso, está a ler jornal... numa
maneira de falar, está ali a dizer tipo, «Despacha-te
que eu quero ir embora!» Os homens são um problema.
Manter a erecção é um problema mesmo. Não
é para todos. Jamais me iria atrever porque não tenho
talento para isso, para estar à frente das câmaras.
Não tenho coragem nem talento para isso...
365 - E uma mulher como eu? Teria
sucesso nos seus filmes ou não?
SÁ LEÃO - [risos] Dentro
da...
365 - Não se importe em ser
desagradável. Estou preparada.
SÁ LEÃO - Não,
de maneira alguma. Não irei ser desagradável, irei
ser é directo e honesto. Depois, você irá tirar
a sua conclusão. Olhando assim para si.... da maneira que
você se apresenta, com os óculos... Não sei
o que traz calçado...
365 - Uns ténis! Sou uma mulher
muito prática...
SÁ LEÃO - Você
é aquilo que os americanos chamam de vizinha do lado... the
girl next door. Exactamente. E é o que vende mais! Ou é
a rapariga do lado ou o estilo que eu optei que é o estilo
amador. Propositadamente amador. Ou, então, a rapariga do
lado que chegou agora do trabalho.... mandou a mala, vai ver as
mensagens em casa... que tem uma vida totalmente normal...
365 - Quando procurava mulheres para
os filmes, que atributos tinham de ter essas mulheres? Magras, gordas,
muito peito, pouco...
SÁ LEÃO - Se houvesse
uma agência com um book e [hipótese de] escolha, «Olhe,
quero a Maria, a Vanda e o João», aí seria diferente...
mas como não há indústria de pornografia em
Portugal, isso não existe. Há pessoas que fazem filmes.
Há profissionais mas não são os actores e as
actrizes... O aspecto visual das mulheres é importante, mas
atendendo ao mercado e às condições que o produtor
tem para contactar certas mulheres... Às vezes, as mulheres
é que nos contactam. No meu caso, quando comecei a aparecer
nas «Noites Marcianas», tive inúmeras ofertas,
principalmente de casais. Eu sempre exigi o uso do preservativo
quando fazia os filmes, mas quando eram casais era facultativo.
Mas depois de eu aparecer na televisão.... Tenho vídeos
caseiros em casa, mas não divulgo nada disso, claro...
365 - Para quando um «Best of
Sá Leão» ou «A Revelação
dos Inéditos»?
SÁ LEÃO - Provavelmente,
brevemente... [risos...devem ser bonitos filmes, devem...] Os inéditos,
acho que não.
365 - E vamos a confissões...
nunca participou nas cenas?
SÁ LEÃO - No meu caso,
não.
365 - E mesmo quando a câmara
pára de filmar?
SÁ LEÃO - Nunca. Eu por
mim, não.
365 - Nunca se envolveu com nenhuma
das suas actrizes?
SÁ LEÃO - Quando a câmara
desliga, eu quero é comer comida, percebe? Provavelmente
estou cansado, vou beber um copo, distrair-me. Exactamente como
você, como outra pessoa qualquer quando acaba de trabalhar.
365 - Então o excesso de sexo
cansa...
SÁ LEÃO - O excesso é
uma palavra que... O excesso faz mal a tudo e a todos. Seja lá
do que for. Eu tive um bocado desse excesso. Eu não sou homossexual
e não tenho nada contra a homossexualidade, mas hoje eu sou
mais um lobo. Escolho. Já não vou àquilo que
me aparece. Já não é só «estar
ali». Para mim, uma mulher pode estar nua à minha frente,
pode fazer o pino, o que quiser, que eu estou aqui normal. Só
se eu quiser... e, claro, se ela quiser também. Hoje em dia
o que mais me excita numa mulher é o sorriso e mais nada.
É o sorriso da mulher e a boa disposição dela.
Prefiro-a toda vestida do que despida.
365 - Agora parou a produção
cinematográfica... mas se voltasse a filmar, que mulher da
sociedade portuguesa gostaria de convidar a participar numa obra
sua?
SÁ LEÃO - Essa pergunta
é que não irei responder pelo seguinte: não
quero que as pessoas interpretem mal as minhas palavras e que se
possam sentir ofendidas. Só por isso, mais nada. Agora, se
estiver na presença dessa pessoa, poderei eventualmente dizer...
Não leve a mal. Mas há muitas...
365 - Então... para ferir menos
susceptibilidades... uma actriz estrangeira... de Hollywood, por
exemplo...
SÁ LEÃO - Ai, não...
Lá está! Vamos bater outra vez na mesma tecla...
365 - Entre a Meryl Streep e a Sandra
Bullock!
SÁ LEÃO - Ai, eu prefiro
não dizer nomes....
365 - Sá Leão, elas
não vão ler a revista...
SÁ LEÃO - Quem sabe,
quem sabe... isto é tudo uma aldeia, hoje em dia... Acho
a Meryl Streep uma excelente actriz... e continua a ser uma das
melhores actrizes que já passou pela sétima arte.
E acho que agora vai ser outra vez nomeada, com certeza... E a Sandra
Bullock é também muito bonita... não é
um grande actriz, como a Meryl Streep...
365 - Considera-se um conservador?
SÁ LEÃO - Considero,
sim senhor. Nos meus hábitos, costumes e no bem estar da
sociedade. Eu não ando aqui a enganar ninguém! Só
isso... Hoje em dia, uma pessoa que tenha esse lema, não
na teoria mas na prática, que o pratique, já é
um conservador na sua maneira de estar no mundo.
365 - Então não filma
a sua intimidade? Uns vídeos caseiros e tal...
SÁ LEÃO - E sou moralista!
365 - Moralista, OK... mas como eu
dizia, o Sá Leão está em filme também?
SÁ LEÃO - Não
tenho nada meu. Meu não tenho mesmo nada, nada, nada. Meu,
meu, da minha vida pessoal não tenho nada. Normalmente, nas
festas, baptizados, casamentos familiares, que toda a gente tem,
eu não tenho nenhuma. Estou sempre a filmar, ou a fotografar
ou a inventar. Estou sempre atrás...
365 - E ser realizador de filmes pornográficos
atrai as mulheres ou assusta-as?
SÁ LEÃO - Nunca tive
muitas namoradas. Contam-se pelos dedos. Eu não ligo muito...
a isso. Quando comecei a aparecer na televisão as coisas
mudaram um bocado, mas não ligo muito a isso...
365 - Não liga muito a mulheres?
SÁ LEÃO - O volume normal,
como toda a gente, acho eu... Há coisas que saem nos jornais,
nas revistas... mas há coisas aí que...[risos]
365 - O Sá Leão é,
então, um homem vulgaríssimo. Vai deitar-se às
dez da noite... tem relações duas vezes por semana...
SÁ LEÃO - Ah, isso não!
Duas vezes por semana, não. Não diga isso! Isso eu
não aguento, não é? Isso jamais! Agora, sou
um homem que, quando tem um relacionamento, sou fiel. 100% fiel!
Mas nunca, jamais irei enganá-la. Se me apetecer fazer algum
coisa eu sou a primeira pessoa a falar com ela e a dizer assim «Olha,
apetecia-me experimentar isto e se for para experimentar, experimentamos
os três!» Mas, agora...
365 - Os três?
SÁ LEÃO - Se for preciso.
Se for preciso, será isso. Mas isso eu considero fidelidade.
Isso é que é ser fiel. Não é dizer «Ó,
Maria, eu hoje tenho uma reunião no Porto», e enfiar-me
no Elefante Branco. Isso é outra história. Eu não
tenho uma relação assim. Não tenho. Sou 100%
fiel. A partir do momento que somos os dois seres adultos, em que
esteja convicto das minhas faculdades mentais e você também,
a gente faz aquilo que bem entender e ninguém tem nada a
ver com isso. Eu não a enganei e você não me
enganou. Fomos casar e respeitámos o que dissemos.
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