CONTACTOS
Entrevista: Rita Marrafa de Carvalho
Fotografia: Pedro Saraiva
Não revela o nome com que preenche o IRS ou paga a conta da água. Diz que é Leão de signo e que quer separar a vida pessoal da profissional. Por isso, Sá Leão soou-lhe bem… e ficou. Tem quatro filmes no mercado pornográfico com a sua assinatura, já todos passaram no canal Sexy Hot e fazem sucesso na Feira da Ladra. Mas o cineasta confessa... existe muito «material» que, sabe-se lá porquê?!, nunca virá a público…

365 - Quando preenche o impresso onde é necessário colocar a profissão, o que é que escreve nesse espaço?
SÁ LEÃO - É que eu também não sei... não está legislado. É que eu não sou, de maneira nenhuma, um realizador. Não tenho curso nenhum, jamais irei ofender quem o tem. O que eu posso pôr é... depende... é que eu faço outras coisas. Além disso, fiz músicas para os Excesso e para outros grupos portugueses... e letras, mas com outro nome...

365 - E esta coisa dos filmes? Começou no liceu com uma câmara em punho a entrar no balneários das raparigas?
SÁ LEÃO -Não, de maneira alguma. Nessa altura só queria jogar a bola e dançar... era a altura do breakdance. O que surgiu foi que eu tinha vindo trabalhar como segurança numa sex-shop que era também um peepshow. É um sítio onde há cabines, quer de vídeo quer de mulheres e homens ao vivo, onde fazem striptease, sexo ao vivo e sexo lésbico. Trabalhei aí como segurança. Mas depois passei para lojista, como falava com os clientes sobre aquilo, e interessei-me. E comecei a reparar que existia uma grande procura de filmes portugueses. Não estou a dizer que não havia [filmes portugueses]. Já havia antes de mim e há agora e continuarão a haver. Mas havia uma certa lacuna no mercado de filmes totalmente diferentes. Falei com um grupo de amigos... ninguém acreditou, e o filme saiu a crédito. Ou seja, «eu não tenho dinheiro pra pagar a ninguém, ganho tanto como vocês. Se der, dá pra todos». Fiz isso, agarrei na cassete, fui bater às editoras, porta em porta, e fiz o negócio com uma editora para um filme. Se aquele filme eventualmente corresse bem, então, a partir daí, faríamos mais. E na editora também me disseram, toda a gente me disse, «Olha, o filme assim não dá... não tens muitas situações de sexo explícito.» E eu disse «Mas nisso eu jamais vou conseguir competir com os internacionais porque eles põem cinco a seis mulheres e vários homens no filme e nós não temos em Portugal orçamento para isso». E, então, optei por fazer o que se faz em qualquer negócio. Não consegues concorrer com a qualidade que o mercado impõe no momento, então optas pela diferença. Foi o que eu fiz. Perdoe-me o termo, fiz um filme bochado, em que fui ao mercado comprar hortaliças. Pimentos, tomates, frangos... e improvisei por aí. Tem pouquíssimas cenas de sexo mesmo explicito. Tem é muita imaginação e foi por aí que o filme triunfou. Foi pela diferença. Ainda hoje é o filme que eu tenho que mais vende e que se chama «Capitã Roby».

365 - Triunfou pela originalidade, com o uso das hortaliças, mas nunca tentou fazer filmes um pouco mais arrojados? Com coprofilia* ou com animais?
SÁ LEÃO -Jamais... isso é ir contra os meu princípios... Animais, pedofilia... e essas aberrações. Isso vai contra os meus princípios. Eu faço filmes para divertir as pessoas, para estimular o ser humano no seu mais puro lado carnal. Isto é uma coisa que já vem da pré-história. Os australopitecos já desenhavam não só as caçadas nas cavernas como também actos sexuais. E com o evoluir dos tempos chegámos à era do vídeo. E agora com o computador e sabemos lá o que virá amanhã. Então... eu opto pela diferença. Porque não consigo concorrer com os orçamentos de produção que as pessoas lá fora têm. Então, vou pela diferença.
*fetishe sexual em que a excitação obtém-se com actos escatológicos: defecar ou urinar durante o acto.

365 - E deixou de fazer filmes porquê?
SÁ LEÃO -Deixei porque, primeiro, estava psicologicamente afectado...

365 - E a mãe não gostava muito da ideia, não?
SÁ LEÃO -Não, não tem a ver com isso. Eu acho que os nossos pais devem ficar orgulhosos dos filhos trabalharem e esforçarem-se para que possam contribuir para a sociedade. Coisa que contribui. Se está legislado, eu paguei o que tinha a pagar sobre isso. Agora, na pornografia paga-se mais do que noutros sectores e nota-se uma hipocrisia da parte legislativa. A minha mãe só tinha de se orgulhar. É claro que não vai ver os meus filmes, eu não lhe peço isso. Jamais lhe iria pedir isso... a gente nunca fala sobre isso. E eu acho que ela, hoje, ainda não entende muito bem. Mas não é por aí que eu quero ir. A sociedade tem de compreender que, se está legislado, eu não fiz mal a ninguém! Eu não compro empresas e corto-as ao meio para depois repartir e desempregar toda a gente e depois abrir noutro lado... Noutro lado, com outro nome, e continuando a aparentar o nível de vida que sempre aparentei: casa no Algarve, monte no Alentejo... Esse tipo de vida que muita gente aparenta... Isso é que poderá, se calhar, não ser orgulho para a mãe desses senhores. Nunca fiz mal a ninguém, nunca coagi ninguém, sempre respeitei as leis do mercado no país onde estou.

365 - E, afinal, parou de filmar porquê?
SÁ LEÃO -Psicologicamente estava afectado. Além de trabalhar nesse peepshow também trabalhava à noite como gerente de casas de striptease. Então, cheguei ao ponto de estar a jantar e as pessoas a fazerem sexo à minha frente... aquilo já nem me dizia nada. E eu, com a parceira que tinha, comecei a visualizar essas cenas. Se trabalhar numa fábrica de chocolates, está constantemente a sair chocolate, chocolate, chocolate... às vezes, nem lhe apetece... o cheiro... depois já nota uma certa indiferença.

365 - E isso aconteceu-lhe com o sexo?
SÁ LEÃO -Sim, aconteceu comigo. Ao ponto de eu estar a ter relações, pessoalmente na minha vida privada, e estar no acto sexual a visionar certas imagens de trabalho. Já misturava ficção com a realidade... e resolvi parar. E por outro motivo pessoal, que poderemos falar noutra altura... mas o principal foi este. E outra coisa. Eu gosto de novo projectos e sou um homem ambicioso. Acho que sem ambição não vamos lado nenhum. Mas respeito sempre os passos do meu concidadão. Sei até onde posso ir. Jamais irei interferir no espaço de alguém. Mas não sou homem de ficar em casa à espera que o telefone toque. Vim da pornografia, sei que ainda tenho lá o carimbo, mas, a pouco e pouco, estou a conquistar outro. É isso que eu faço, passo a passo...

365 - E as mulheres portuguesas são boas actrizes porno?
SÁ LEÃO -Daquilo que eu vi, o mais difícil são os homens. A experiência ensinou-me que se eu precisar de dois homens eu tenho de levar seis ou oito... porque é muito difícil manter a erecção. Para uma mulher é relativamente fácil. É só o aspecto psicológico. A mulher tem de estar preparada psicologicamente. Se ela disser, «Sim, eu vou fazer», faz. Não há problema nenhum. Passa um bocado de lubrificante, mesmo que esteja fria, e depois o homem é que tem de fazer tudo. O homem é que tem de estar concentrado e tem de levar comigo a dizer «Pá, chega pra lá a perna, não podes estar assim... põe-te noutra posição». Enquanto a mulher, se for preciso, está a ler jornal... numa maneira de falar, está ali a dizer tipo, «Despacha-te que eu quero ir embora!» Os homens são um problema. Manter a erecção é um problema mesmo. Não é para todos. Jamais me iria atrever porque não tenho talento para isso, para estar à frente das câmaras. Não tenho coragem nem talento para isso...

365 - E uma mulher como eu? Teria sucesso nos seus filmes ou não?
SÁ LEÃO - [risos] Dentro da...

365 - Não se importe em ser desagradável. Estou preparada.
SÁ LEÃO - Não, de maneira alguma. Não irei ser desagradável, irei ser é directo e honesto. Depois, você irá tirar a sua conclusão. Olhando assim para si.... da maneira que você se apresenta, com os óculos... Não sei o que traz calçado...

365 - Uns ténis! Sou uma mulher muito prática...
SÁ LEÃO - Você é aquilo que os americanos chamam de vizinha do lado... the girl next door. Exactamente. E é o que vende mais! Ou é a rapariga do lado ou o estilo que eu optei que é o estilo amador. Propositadamente amador. Ou, então, a rapariga do lado que chegou agora do trabalho.... mandou a mala, vai ver as mensagens em casa... que tem uma vida totalmente normal...

365 - Quando procurava mulheres para os filmes, que atributos tinham de ter essas mulheres? Magras, gordas, muito peito, pouco...
SÁ LEÃO - Se houvesse uma agência com um book e [hipótese de] escolha, «Olhe, quero a Maria, a Vanda e o João», aí seria diferente... mas como não há indústria de pornografia em Portugal, isso não existe. Há pessoas que fazem filmes. Há profissionais mas não são os actores e as actrizes... O aspecto visual das mulheres é importante, mas atendendo ao mercado e às condições que o produtor tem para contactar certas mulheres... Às vezes, as mulheres é que nos contactam. No meu caso, quando comecei a aparecer nas «Noites Marcianas», tive inúmeras ofertas, principalmente de casais. Eu sempre exigi o uso do preservativo quando fazia os filmes, mas quando eram casais era facultativo. Mas depois de eu aparecer na televisão.... Tenho vídeos caseiros em casa, mas não divulgo nada disso, claro...

365 - Para quando um «Best of Sá Leão» ou «A Revelação dos Inéditos»?
SÁ LEÃO - Provavelmente, brevemente... [risos...devem ser bonitos filmes, devem...] Os inéditos, acho que não.

365 - E vamos a confissões... nunca participou nas cenas?
SÁ LEÃO - No meu caso, não.

365 - E mesmo quando a câmara pára de filmar?
SÁ LEÃO - Nunca. Eu por mim, não.

365 - Nunca se envolveu com nenhuma das suas actrizes?
SÁ LEÃO - Quando a câmara desliga, eu quero é comer comida, percebe? Provavelmente estou cansado, vou beber um copo, distrair-me. Exactamente como você, como outra pessoa qualquer quando acaba de trabalhar.

365 - Então o excesso de sexo cansa...
SÁ LEÃO - O excesso é uma palavra que... O excesso faz mal a tudo e a todos. Seja lá do que for. Eu tive um bocado desse excesso. Eu não sou homossexual e não tenho nada contra a homossexualidade, mas hoje eu sou mais um lobo. Escolho. Já não vou àquilo que me aparece. Já não é só «estar ali». Para mim, uma mulher pode estar nua à minha frente, pode fazer o pino, o que quiser, que eu estou aqui normal. Só se eu quiser... e, claro, se ela quiser também. Hoje em dia o que mais me excita numa mulher é o sorriso e mais nada. É o sorriso da mulher e a boa disposição dela. Prefiro-a toda vestida do que despida.

365 - Agora parou a produção cinematográfica... mas se voltasse a filmar, que mulher da sociedade portuguesa gostaria de convidar a participar numa obra sua?
SÁ LEÃO - Essa pergunta é que não irei responder pelo seguinte: não quero que as pessoas interpretem mal as minhas palavras e que se possam sentir ofendidas. Só por isso, mais nada. Agora, se estiver na presença dessa pessoa, poderei eventualmente dizer... Não leve a mal. Mas há muitas...

365 - Então... para ferir menos susceptibilidades... uma actriz estrangeira... de Hollywood, por exemplo...
SÁ LEÃO - Ai, não... Lá está! Vamos bater outra vez na mesma tecla...

365 - Entre a Meryl Streep e a Sandra Bullock!
SÁ LEÃO - Ai, eu prefiro não dizer nomes....

365 - Sá Leão, elas não vão ler a revista...
SÁ LEÃO - Quem sabe, quem sabe... isto é tudo uma aldeia, hoje em dia... Acho a Meryl Streep uma excelente actriz... e continua a ser uma das melhores actrizes que já passou pela sétima arte. E acho que agora vai ser outra vez nomeada, com certeza... E a Sandra Bullock é também muito bonita... não é um grande actriz, como a Meryl Streep...

365 - Considera-se um conservador?
SÁ LEÃO - Considero, sim senhor. Nos meus hábitos, costumes e no bem estar da sociedade. Eu não ando aqui a enganar ninguém! Só isso... Hoje em dia, uma pessoa que tenha esse lema, não na teoria mas na prática, que o pratique, já é um conservador na sua maneira de estar no mundo.

365 - Então não filma a sua intimidade? Uns vídeos caseiros e tal...
SÁ LEÃO - E sou moralista!

365 - Moralista, OK... mas como eu dizia, o Sá Leão está em filme também?
SÁ LEÃO - Não tenho nada meu. Meu não tenho mesmo nada, nada, nada. Meu, meu, da minha vida pessoal não tenho nada. Normalmente, nas festas, baptizados, casamentos familiares, que toda a gente tem, eu não tenho nenhuma. Estou sempre a filmar, ou a fotografar ou a inventar. Estou sempre atrás...

365 - E ser realizador de filmes pornográficos atrai as mulheres ou assusta-as?
SÁ LEÃO - Nunca tive muitas namoradas. Contam-se pelos dedos. Eu não ligo muito... a isso. Quando comecei a aparecer na televisão as coisas mudaram um bocado, mas não ligo muito a isso...

365 - Não liga muito a mulheres?
SÁ LEÃO - O volume normal, como toda a gente, acho eu... Há coisas que saem nos jornais, nas revistas... mas há coisas aí que...[risos]

365 - O Sá Leão é, então, um homem vulgaríssimo. Vai deitar-se às dez da noite... tem relações duas vezes por semana...
SÁ LEÃO - Ah, isso não! Duas vezes por semana, não. Não diga isso! Isso eu não aguento, não é? Isso jamais! Agora, sou um homem que, quando tem um relacionamento, sou fiel. 100% fiel! Mas nunca, jamais irei enganá-la. Se me apetecer fazer algum coisa eu sou a primeira pessoa a falar com ela e a dizer assim «Olha, apetecia-me experimentar isto e se for para experimentar, experimentamos os três!» Mas, agora...

365 - Os três?
SÁ LEÃO - Se for preciso. Se for preciso, será isso. Mas isso eu considero fidelidade. Isso é que é ser fiel. Não é dizer «Ó, Maria, eu hoje tenho uma reunião no Porto», e enfiar-me no Elefante Branco. Isso é outra história. Eu não tenho uma relação assim. Não tenho. Sou 100% fiel. A partir do momento que somos os dois seres adultos, em que esteja convicto das minhas faculdades mentais e você também, a gente faz aquilo que bem entender e ninguém tem nada a ver com isso. Eu não a enganei e você não me enganou. Fomos casar e respeitámos o que dissemos.

 

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