| 365
- Tu naquele anúncio estás como uma atitude
muito direitinha. És mesmo assim?
XANA CAMPOS - Não. Não
sou uma pessoa muito direitinha mas também não me
preocupo com isso. Em ser direitinha ou deixar de ser, não
me diz absolutamente nada.
365 - Já fizeste alguma coisa
que te arrependesses de ter feito ou que fosse demasiado radical?
Tipo: “o que é que eu fiz?”
XANA CAMPOS - Ah, espero bem que sim…
quer dizer…acho sim, toda a gente já se deve ter arrependido
de fazer imensa coisa e .. “olha eu devia ter feito isso ou
devia ter feito de outra maneira, que estupidez!” claro que
já, de certeza que já me arrependi de coisas que tenha
feito. Não me lembro exactamente o quê. Se calhar não
é nada de dramático.
365 - Mas és uma menina bem
comportada?
XANA CAMPOS - Tem dias. [risos] Devo
confessar que tinha um pai bastante austero e talvez por isso, pela
forma muito disciplinada com que fui educada, cedo quis reagir em
oposição, em particular na adolescência onde
desde muito cedo quis sair à noite contra a vontade dos meus
pais que me queriam ver mais em casa. Não foi fácil.
Era levada da breca.
365 - Quase que adivinho que fizeste
muitas asneiras.
XANA CAMPOS - Algumas. Tipo, faltar
às aulas para ir para casa de umas amigas minhas ver e ouvir
vídeos dos U2 enquanto fazíamos lanches e jantares
que ainda hoje não esqueço. É curioso, mas
lembro-me que na altura existiam umas botas tipo cowboy que eu adorava
e o meu pai detestava. Chegou-me a dizer “ Xana Campos, nunca
terás umas botas à cowboy enquanto for eu a sustentar-te
e livra-te de trazer umas para casa”, e depois disto, se depressa
o pensei, melhor o fiz. E pronto, eu, que na altura tinha 14 anos,
e mais duas amigas, arranjámos forma de não irmos
de férias com os nossos pais nesse mês de Agosto e,
em segredo, conseguimos um emprego numa loja de roupa na baixa que
nos permitiu não só comprar as ambicionadas botas
à cowboy, daquelas de biqueira de aço, mas também
nos fez divertir muito. Por estarmos sozinhas em casa e aproveitarmos
isso para fazer jantares, usar a roupa dos nosso pais, ver filmes,
enfim, divertidíssimo.
365 - Mentias aos teus pais?
XANA CAMPOS - Claro. [risos] Sempre
que era preciso! Eu já te disse que tinha um pai exigente,
portanto… não tinha hipótese. Às vezes,
era mesmo preciso.
365 - Já vi que foste prematura
na conquista da tua independência.
XANA CAMPOS - Sim, não tenho
dúvidas disso, acho que o quis ser desde o momento em que
nasci. Tinha que ser tão bem comportada que o meu sonho sempre
foi sair de casa entre os 16 e os 18 anos.
365 - E saíste?
XANA CAMPOS - Mais tarde.
365 - A que horas? [risos]
XANA CAMPOS - Às nove da noite,
quando tinha 22.
365 - Antes disto, chegaste a dormir
fora de casa muitas vezes?
XANA CAMPOS - Em algumas ocasiões,
devo admitir que sim. É o velho clássico: “Olha
mãe, vou dormir a casa da Ana”, que era uma amiga minha,
da mesma idade, que me encobria sempre nestas coisas.
365 - Quer dizer que não dormias
em casa da Ana?
XANA CAMPOS - Às vezes sim,
só que dormíamos entre as 4 da manhã e as 8,
percebes? Ao contrário do que seria suposto, não dormíamos
das 10 da noite às 8 da manhã e não me perguntes
mais nada!! [risos]
365 - Então e os namorados…
a que idade é que apareceram?
XANA CAMPOS - Na creche. Na creche
tinha nove namorados.
365 - Quantos???
XANA CAMPOS - Nove.
365 - Com mil repolhos, isso não
era possível, nove? A que é que tu chamas namorado?
XANA CAMPOS - Ora, namorado é
aquele rapaz que vai apanhar o molho de azedas ao jardim e vem assim,
com um molho de azedas da largura duma mesa, não sei, assim
um molho de azedas e oferece as azedas todas que estavam no jardim.
Isso aos nove anos era ter um namorado bem como um outro que fazia
um desenho dedicado só para mim. Isso é outro namorado!
[risos]
365 - Mas depois dos namorados da
creche, surgiu o teu primeiro namorado a sério, ainda te
lembras?
XANA CAMPOS - O meu primeiro namorado,
sim. Depois disso, não tive assim tantos.
365 - E a história do anúncio,
como é que surgiu o convite?
XANA CAMPOS - Olha, foi há imensos
anos, numa altura que eu não tinha ideia do que iria fazer
à minha vida e me tinha metido num daqueles cursos técnico-profissionais
que estavam muito em voga. Um curso de decoração de
interiores onde durante um ano aprendi muito e repartia o meu tempo
com aulas de dança que chegaram a valer-me uma bolsa numa
companhia que me chegou a fazer pensar que iria ser bailarina. Não
aconteceu, mas foi numa ida para uma dessas aulas que me descobriram.
365 - Como assim?
XANA CAMPOS - Foi alguém que
me viu no metro e que, sem me conhecer, veio atrás de mim
e me disse que tinha um papel com a minha cara. Que era eu, que
o papel era para alguém com o meu perfil e não outra.
Era eu.
365 - E eras?
XANA CAMPOS - Era. A Mariana. Fiz o
papel de louca, louca mesmo, daquelas que atiram malas à
cara das pessoas e coisas assim. Lembro-me de uma cena em que a
minha voz era dobrada pela Sofia Reis e eu dizia originalmente,
em tom desesperado “Vão-se embora, vão-se embora”.
Com a dobragem não se percebia dessa forma, perdia intensidade,
e aí senti-me um pouco frustrada, embora tenha gostado da
experiência que me levou mais tarde à Endemol e à
produção televisiva, e à série Médico
de Família. A Patrícia Vasconcelos viu-me na televisão
e convidou-me para o casting do anúncio a que te referes.
365 - E depois, nunca mais fizeste
nada?
XANA CAMPOS - Pouco, porque a arquitectura
me começou a absorver de uma forma tão intensa que
quase não me deixou espaço para mais nada. Participei
no filme “Les Filles à Pappa” para a TF1 francesa,
e na última novela da Globo, que já estreou no Brasil.
Gostava de ter determinados realizadores a dirigirem-me.
365 - Alguém em especial?
XANA CAMPOS - Alguém especial,
mas não me atrevo. Não sei até se dá
para falar das coisas desta forma, mas a minha intenção
era mesmo experimentar. Tenho uma profunda admiração
pela obra do Fernando Lopes, do Manoel de Oliveira, do Paulo Rocha,
do João César Monteiro…
365 - E na arquitectura?
XANA CAMPOS - Na arquitectura, alguém
especial… O arquitecto com quem estou a trabalhar há
um ano, Raúl Hestnes Ferreira, que trabalhou com o Louis
Khan nos E.U.A., e que, naturalmente, influenciou muito a sua obra.
Mas temos arquitectos notáveis: o Vítor Figueiredo,
o Siza Vieira, outros da geração mais recente…
É impossível falar assim de arquitectura, deixa lá
isso…!
365 - Como é que desenharias
a tua casa?
XANA CAMPOS - Como ela deixar…
Com carácter, que encerre um mistério, que se quer
libertar, que se quer controlar, que se quer fechar, que se quer
abrir, à luz, e com paredes, e outros filtros.
365 - Tens sempre na mão aquilo
que queres?
XANA CAMPOS - Não. O que é
que chamas ter na mão?
365 - Dominar? [risos]
XANA CAMPOS - Isso é um bocado
diferente. Embora não seja grave, acho que é um defeito,
não é virtude nenhuma e tenho de facto o hábito
de ter um bocado o domínio das situações.
365 - Dominadora?
XANA CAMPOS - Não sei se sou
dominadora ou não. Eu sou um bocado possessiva em todas as
relações afectuosas que tenho. Mas nada de muito dramático,
entendes? Sou possessiva, gosto muito dos meus amigos, tenho ciúmes
deles.
365 - Não és ciumenta
obsessiva?
XANA CAMPOS - De todo, não,
não, nada disso. Eu quando gosto, gosto muito. Isso de certa
forma pode parecer que é possessão mas para mim não
o é…. Para que percebas, às vezes gosto tanto
de um amigo que, se lhe fazem alguma coisa de mal, é o mesmo
que estarem a fazer mal a mim. É mais isto.
365 - As mulheres como tu deparam-se
com um problema que pode ser grave. Os amigos, sendo tu tão
bonita e dedicada, às vezes podem confundir isso com algo
mais do que amizade. Nunca te aconteceu?
XANA CAMPOS - Se o que me estás
a dizer é que às vezes os sentimentos se misturam,
se confundem, a resposta é esta: se calhar, já.
365 - Se calhar ou já aconteceu?
XANA CAMPOS - Não… as
coisas podem acontecer assim, mas não as vejo dessa forma.
Eu sei que tenho amigos que gostam muito de mim e se calhar quem
está de fora pode equacionar outras intenções
que não são as reais. Mas, quer dizer, eu tenho o
meu lado perverso, como podes imaginar, não há ninguém
que não tenha! [risos]
365 - Huumm, tens o teu lado perverso!!…
XANA CAMPOS - Tenho o suficiente, no
sentido enriquecedor! E adoro o lado complexo dos meus amigos.
365 - Até onde é que
pode ir o teu lado perverso?
XANA CAMPOS - Até onde eu quiser.
365 - Nunca ninguém fugiu de
ti?
XANA CAMPOS - Fugiu de mim, como assim?
Com medo de mim? Talvez. Eu própria por vezes fujo de mim.
Com medo de mim.
365 - Tens medo de ti? Medo de quê?
XANA CAMPOS - É assim, no fundo,
no fundo, medo, medo, não tenho medo de nada, não
é? Medo do quê? Tenho medo… Daquelas coisas que
não vês e que te podem atingir sem estares à
espera, sem que nada possas fazer. O medo do abstracto, daquilo
que nos parece estar um bocado longe, que dá mostras de ser
inconsciente. Esta coisa dos vírus, tudo o que não
podes fazer nada para mudar, as doenças, um vírus
não-sei-do-quê, uma bomba a chegar não sei de
onde, tás a perceber?
365 - E a Marta da OK TeleSeguro.
Vias-te no papel dela na vida real?
XANA CAMPOS - Não, não
me imagino num call-center.
365 - Mas quase que aposto que já
seduziste alguém ao telefone.
XANA CAMPOS - Sei lá, acho que
sim. Ao telefone e sem ser ao telefone. Se calhar, faz parte
de mim. A sedução faz parte da vida, digamos assim.
365 - Nunca tiveste nenhuma conversa
telefónica fora do normal?
XANA CAMPOS - Quer dizer…sem
ser na história da Marta não me recordo. Acho mesmo
que não, não ligo, ainda que seja capaz de estar horas
com uma só chamada.
365 - E já precisaste de usar
algum seguro por teres tido acidente?
XANA CAMPOS - Não, nunca tive.
365 - E especialidades, tens?
XANA CAMPOS - Depende. A nível
culinário tenho algumas especialidades super práticas
que funcionam lindamente. Exemplos? Salada de frutos de Inverno,
é uma óptima sobremesa.
365 - Nunca te puseste no lugar de
sobremesa?
XANA CAMPOS - Não.
365 - Mas devias, acho que davas uma
óptima sobremesa. Devias até comprar uma lingerie
especial, que achas?
XANA CAMPOS - Acho que não tens
muito a ver com o assunto. [risos]
365 - Quando eras pequena a que é
que brincavas?
XANA CAMPOS - Sempre com uma profissão
liberal onde os lápis eram cigarros. Adorava legos. Construía
cidades inteiras, quintas e casinhas. E quando nessa altura as outras
crianças se entretiam a fazer colecção de estrumpfes
ou outros que tais de séries da televisão, eu já
dava por mim a fazer filmes no quarto, onde ninguém podia
abrir a porta sem aviso prévio sob pena de poder estragar
uma cena num quarto atolado de coisas no chão.
365 - Ainda gostas de fazer filmes?
XANA CAMPOS - Gosto. Adoro fazer filmes.
365 - E fazes?
XANA CAMPOS - Faço [risos]
365 - Como é que eles são?
XANA CAMPOS - Variam muito. Não
há bem uma linha condutora. Podem ser românticos, de
aventura a até mesmo de terror.
365 - Medo. O que é para ti
um bom bocado?
XANA CAMPOS - Um bom bocado? É
um bolo.
365 - Fala-me dos teus pequenos prazeres.
XANA CAMPOS - Os meus pequenos prazeres
são fazer renda… [risos] Tou a brincar, tou a brincar,
não é nada. Os meus pequenos prazeres são muitos,
mas adoro ir ao cinema, ler, estar em minha casa a apanhar sol numa
cadeira muito quentinha, a ler, a ouvir música, ou então
estar horas a cozinhar, começar a meio da tarde, ter pessoas
comigo e ficar com elas o dia todo, imensos à mesa, à
conversa, sem que se perceba que o tempo passa, a ver slides e whatever…
a comer, adoro comer!
365 - O que é que gostas de
comer?
XANA CAMPOS - Tudo!
365 - Comes tudo?
XANA CAMPOS - Quase tudo, só
não gosto de fígado.
365 - És pouco esquisita…
XANA CAMPOS - Muito pouco esquisita.
365 - E elástica, és?
Consegues fazer a esparregata?
XANA CAMPOS - Consigo.
365 - Na boa?
XANA CAMPOS - Não, na boa, não
é bem assim…nunca se deve fazer a esparregata na boa,
tem sempre que se aquecer primeiro.
365 - E tu aqueces?
XANA CAMPOS - Aqueço [risos]
365 - Voltando à conversa do
telefone de há pouco, qual é a relação
com o teu telefone?
XANA CAMPOS - Telemóvel.
365 - Vês alguma coisa de freudiano
no objecto?
XANA CAMPOS - Estás a perguntar
se eu olho para aquilo e acho que tem uma forma fálica? De
todo. Não.
365 - Agora há uns novos modelos…
não?
XANA CAMPOS - Não reparo muito.
Estou satisfeita com o meu.
365 - Estás satisfeita com
o teu telemóvel…
XANA CAMPOS - O suficiente.
365 - É amarelo…É
pequenino ou grande?
XANA CAMPOS - É pequenino.
365 - Gostas mais de coisas pequenas
ou grandes?
XANA CAMPOS - Dá mais jeito
ter pequeno, que é para caber na mala…
365 - [risos]
XANA CAMPOS - E é leve, também…
365 - Gostas de coisas leves, também?
XANA CAMPOS - Também.
365 - És a favor de drogas
leves ou duras?
XANA CAMPOS - Se sou a favor?
365 - És a favor de algum tipo
de droga?
XANA CAMPOS - Sou consumidora convicta
de quase todas as drogas socialmente aceitáveis. [risos]
365 - Tens algum problema em comer
alguma fruta? [risos] Por exemplo, uma banana, és capaz de
comer em frente aos teus amigos na boa?
XANA CAMPOS - Evidente que sim, qual
é o problema?
365 - Não pensas que isso pode
ter algo de pecaminoso? Não… isso é a minha
mente perversa.
XANA CAMPOS - Pois…
365 - Eras capaz de comer um Calipo
em frente ao pessoal?
XANA CAMPOS - Ai não, não
ligo a Calipos.
365 - Não gostas…
XANA CAMPOS - Não acho nada
interessante o gelado, como sobremesa…
365 - A Torre Eiffel faz-te lembrar
alguma coisa?
XANA CAMPOS - Faz-me lembrar quando
lá estive.
365 - [risos] Gostas mais de calças
com fecho éclair ou com botões?
XANA CAMPOS - Se calhar fecho éclair
dá mais jeito.
365 - Porquê?
XANA CAMPOS - Sei lá, é
mais prático!
365 - Mais prático para quê?
XANA CAMPOS - Para quando estás
muito aflito!
365 - Estás muito aflita, às
vezes?
XANA CAMPOS - Às vezes estou…
365 - Como é que fazes para
aliviar a tensão?
XANA CAMPOS - Vou precisamente à
casa de banho.
365 - Usas mais calças ou mais
saias?
XANA CAMPOS - Mais calças. Porque
dá mais jeito
365 - Sabes… os homens gostam
muito de saias…
XANA CAMPOS - Nós também,
pelas mesmas razões.
365 - E de uma historinha antes de
adormeceres, gostas que contem uma antes de adormeceres?
XANA CAMPOS - Normalmente leio sempre
um bocado antes de adormecer.
365 - E quando te levantas qual é
a primeira coisa que gostas de fazer?
XANA CAMPOS - Espreguiçar-me.
365 - O que é que te faz aquecer
numa noite fria de Inverno?
XANA CAMPOS - O meu gato… e não
só, entre outras coisas
365 - O teu gato é quentinho?
XANA CAMPOS - É… o meu
gato, o meu aquecedor, uma mantinha… essas coisas!
365 - Já alguma vez te sentiste
muito, muito fria?
XANA CAMPOS - Já, porque tenho
péssima circulação. Fria, não frígida
[risos]
Dados Pessoais:
29 anos, Xana Campos, arquitecta, 12 Fevereiro 1973, signo
Aquário, ascendente Virgem, nasceu em Lisboa, Maternidade
Alfredo da Costa.
|