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| Todos
os dias, Quarta-feira de cinzas |
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1.
Já sei. Vou escolher um dia. Pode ser segunda-feira
gorda. Escolho a segunda-feira gorda e, antes de ele se
levantar, levanto-me devagarinho, sem tocar no silêncio,
e escondo-lhe a gillete. Ele olha para os lados, para
cima, para baixo, revolve os frascos de comprimidos, as
caixas de aspirinas, as cotonetes, o mercúrio,
o álcool e depois grita Cristina, Cristina, onde
é que deixaste as minhas lâminas de barbear,
Cristina. A seguir, começa a andar pela casa. Maldita
mulher, onde é que te meteste, e vai chamar-me
maluca, muitas vezes maluca maluca maluca dum raio, maluca
de merda. Eu, escondida no armário, rio-me baixinho.
Entre lianas de gravatas, sob folhas tropicais de casacos
e sobretudos, sufoco gargalhadas. Cristina, aparece. Ele
terá pontos de barba a furarem-lhe as faces e dirá
Cristina, a brincadeira já não tem piada
nehuma. E olhará o relógio e dirá
maluca, que nunca foste boa da cabeça, louca, maluca.
Ao bater a porta, acordará o Ruben. Com cuidado,
sairei do armário para confortar a criança
e a devolver ao sono. Depois, sento-me no sofá
a imaginá-lo no escritório, sentado à
secretária, humilhado por ver que os colegas falam
dele e sorriem, que o patrão não lhe disse
bom dia, que a mulher do café não o tratou
por senhor doutor.
2.
Melhor ainda. Escolho outro dia. Pode ser o domingo de
carnaval. Escolho o domingo de carnaval e ainda antes
de ele acordar, arranjar-se e sair à pressa, levanto-me,
primeiro um pé descalço no tapete, depois
o outro, a ceder apenas dois estalinhos pequenos dos joelhos,
vou à casa de banho, despejo-lhe o after shave
no bidé e substituo-o pelo perfume ordinário
que a irmã dele me deu no Natal. Ele faz a barba
e, sem pensar, bate duas vezes com as palmas molhadas
de perfume nas faces. E sente o enjoativo do cheiro. Diz
Cristina, anda cá. Cristina, não me ouves?
Anda cá imediatamente. E eu não vou, claro.
Que porcaria é que meteste no meu after shave?
E lava a cara com toda a força, como se não
fosse a cara, como se fosse um objecto, uma bola de futebol;
esfrega o rosto, raspa-o com as unhas, enche-o de sabonete,
o que torna o cheiro ainda mais intenso. Cristina, maluca
de uma raio, nunca devia ter casado contigo, anormal,
maluca maluca. Cristina, aparece, estúpida. Eu,
no armário. Eu a rir-me sem que ele me ouça,
a abafar-me numa almofada para ele não ouvir. E
ele a perder as forças na voz malucamalucamaluca.
Ao bater a porta, acordará o Ruben. Esticarei as
pernas, arranjarei as roupas no corpo e, no colo, sossegarei
a criança até de novo a pousar no berço
e a tapar suavemente. E, até ao almoço,
sento-me no sofá a imaginá-lo lá
para onde vai a cheirar a puta, que é o cheiro
do perfume que a irmã dele me deu no natal.
3.
Ou não. Escolho um dia. Pode ser a terça-feira
de carnaval. Escolho a terça-feira de carnaval
e, antes da manhã, antes do momento rasante do
sol a nascer, saio da cama e, com a tesoura de desmembrar
os frangos, corto-lhe rente os pêlos do pincel da
barba. Ele fica a olhar para o pincel careca por uns instantes,
passa-lhe os dedos sem acreditar e grita, Cristina, anda
cá ver, Cristina. E fica a segurar o pequeno coto
de madeira, como um braço amputado, talhado pela
vontade expressa do rei ou do cardeal. Segura, sem utilidade,
o cilindro gordo de madeira e diz Cristina, imbecil, maluca
de merda, anda cá ver a porcaria que fizeste. Na
proteção do armário de paletós
e fatos completos, no odor suave das bolas de naftalina,
no roer sonoro das traças, rirei. Hei-de rir. Maluca
de riso. Maluca, gritará ele. Maluca, dirá
sem se ver ao espelho, espreitando apenas o reflexo tísico
do relógio no pulso. E talvez então experimente
pôr algum creme na cara com as mãos, talvez
então se lembre de tentar fazer a barba mesmo assim
e talvez já não tenha tempo. Ao bater a
porta, acordará o Ruben. Com a agilidade que mantenho,
pousarei os pés nos chinelos diante da porta espelhada
do armário e, em minutos, cantarei uma música
ao menino e verei os seus olhinhos fecharem-se, a respiração
acalmar-se. No sofá da sala, como se visse um filme
na televisão desligada, fico a manhã toda
a imaginá-lo envergonhado, com a barba mal feita,
a fazer ruim figura nesses sítios para onde vai
e nunca nos leva.
4.
Aconteceu isto. Foi na quarta-feira de cinzas. De véspera,
escolhi a quarta-feira de cinzas e, antes da hora a que
o despertador toca todos os dias, sem perturbar o secreto
silêncio da madrugada, deslizei da cama e, com um
prego enferrujado que estava na dispensa, bati quatro
vezes nas lâminas da gillete, levantei-lhes quatro
farpas. Ele espalhou o creme com pinceladas precisas e,
à pressa, da patilha para o centro da face fez
deslizar a gillete. As lascas da lâmina abriram-lhe
quatro veios de sangue na cara e gritou alto e o vermelho
misturou-se no branco e, incrédulo, a gaguejar,
disse mamamaluca de um raio, aterrorizado com o sangue
nas mãos e quente no pescoço, gritou Cristina,
cabra, louca, nunca devia ter casado contigo. E chamou-me
muitas vezes maluca maluca maluca de merda, deste-me um
filho maluco como tu, anormal como tu. Louca. No escuro
do armário, as minhas gargalhadas polvilhadas,
miúdas, pontilhadas nas camisas vincadas e passadas
a ferro. E ele lavou a cara para tirar o sabão
e estancou o sangue com papel higiénico e disse
maluca. Ao bater a porta, acordou o Ruben. Saí
do armário e a andar e a correr, peguei no meu
filho, beijei-o devagar. O sol desceu um pouco na manhã.
Senti o seu peito acalmar-se, senti o toque inocente do
seu olhar. E, com o seu corpo pequeno ao colo, as suas
mãos, o seu rosto, sentei-me no sofá e,
na luz suave que a janela deixava entrar, abracei-o mais
e pensei em nós.
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
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| Parábola
das Mocas |
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Primeiro capítulo, cujo cenário é
uma sala de estar.
O que é que há hoje na TV?
perguntou a mosca doméstica (musca domestica) ao
seu companheiro, que pertencia, como não podia
deixar de ser, à subcategoria musca vulgaris Linnaei.
Ele desviou os olhos da notícia que lia na página
desportiva do jornal (a única que favorecia com
as suas atenções) e consultou a programação:
Assim, coisa de jeito... daqui a cinco minutos
temos a telenovela, depois há a transmissão
do Ajax Desportivo de Pedrógão a
contar para o Campeonato de Subcinco. Não acrescentou
que se a conspícua amantíssima adormecesse,
como ele esperava, ainda podia ver o filme pornográfico
que a SIC anunciava no programa, com um O e a eufemística
designação de «erótico».
A musca domestica suspirou de alívio e comentou:
Vá lá, não é mau. Eles
têm estado a melhorar.
Dizia isto porque ainda na véspera assistira embevecida
a um châo musical ao vivo e em directo, com artistas
nacionais do mais puro quilate, tanto assim que ainda
lhe vibravam no cérebro os versos sublimes: «Afinal
havia outra / E seu sem saber...».
Convém esclarecer que estas duas moscas, nas suas
respectivas subcategorias, pertenciam à grande
classe da musca lusitanica.
Segundo capítulo, cujo cenário é
um gabinete mobilado com discreto bom gosto.
As moscas em presença, sendo embora da mesma classe
lusitanica, pertenciam a subcategorias muito mais exaltadas.
Não me interessa que haja descontentes!
exclamava a musca guterreana mirabilis aos seus
colaboradores íntimos Temos de manter a
nossa participação na campanha contra a
miloseviciana terribilis. Está claro que não
serve para nada, mas dá-nos uma certa projecção
internacional. Olhem que estou farto de ver a nossa bandeira,
de cada vez que há uma conferência de imprensa
da NATO em Bruxelas.
Ninguém objectou que a bandeira estaria lá
mesmo que não houvesse participação,
nem que o financiamento da dita, ainda que quantitativamente
pouco expressivo, seria bem mais útil e moralmente
mais imperativo, se fosse gasto, por exemplo, no auxílio
à musca timurensis massacrata. Afinal de contas,
abichar umas viagens na Europa ou para a América
era certamente preferível a queimar muitos neurónios
e muitas energias com causas incómodas.
E agora, um outro assunto prosseguiu a guterreana
mirabilis. O que é que nos falta privatizar?
Eu, se querem saber, ando a pensar na Assembleia da República.
Afinal de contas, é preciso manter a coerência;
ou somos socialistas ou não somos!
Terceiro capítulo, que decorre numa sala sumptuosa
e elíptica.
Então, esses nabos enganaram-se outra vez?
resmungou a musca clintoniana oralis (subcategoria
da classe presidentialis mundi sublimissima). Quantos
civis foram, desta vez? Duzentos? É uma chatice,
há que dizer aos rapazes que têm de afinar
a pontaria. E o que se passa com a musca kosovaris lixata?
Continua a lerpar à grande, não? Bom, de
qualquer modo a nossa orientação mantém-se,
meus senhores: a partir de agora, os ataques aos insubmissos
por esse mundo fora, passam a ser feitos via NATO. E se
vierem repontar a dizer que é uma aliança
defensiva, olhem: já a minha mãezinha dizia
que a melhor defesa é o ataque. Quem são
eles para contrariar a minha mãe?
Quarto capítulo, algures em Java.
Quais referendo nem meio referendo! exclamou
a musca indonesica dictatorialis. Mandem mas é
mais comandos integracionistas para dissolver o sarampo
à timurensis massacrata. De resto, a australianica
petroliphica e a cliontiana oralis apoiam-nos, mesmo que
falem baixinho.
O epílogo, que se segue e que é muito breve,
tem como cenário o Planeta Terra:
Por estranho que pareça, o consagrado provérbio
nem sempre é exacto e temos, portanto, de o corrigir:
A merda, companheiros, é que tende a mudar de aspecto
e substância; as moscas, essas, não variam
muito.
JOÃO AGUIAR |
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| Se
não puder ser hoje |
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Bebias um irish coffee todas as tardes.
Sentavas-te cuidadosamente, sempre preocupada com a tua
roupa, alisando a saia com as mãos para que não
se amarrotasse, ou dobrando cuidadosamente a camisola antes
de a colocares nas costas da cadeira.
Lembro-me também do teu colar feito de cordão,
que trazia pendurada uma estrela de cinco pontas prateada.
Às vezes brilhava. Acontecia nos dias de chuva, quando
todos os outros à tua volta se sentiam tristes e
sem vida. Curiosamente, não brilhava com o sol. Parecia
envergonhado e sem vida, como uma prata que não é
polida há anos. Combinava contigo, acho eu. Tu também
sobressaías quando o ambiente estava menos alegre.
Acho que isso acontecia porque és constante. Nenhuma
palavra pode definir-te melhor senão constante. Andavas
sempre com o mesmo semblante e com a mesma disposição.
Por isso é que quando tudo estava animado, quando
os turistas corriam à tua volta e os cães
vadios ladravam à espera de umas migalhas de torrada
ou bolo xadrez que adoravas, tu passavas despercebida. O
teu rosto respirava tranquilidade, o teu cabelo parecia
pesado demais para o vento conseguir levantar. Eras uma
árvore centenária num bosque milenar. Perdia-te
de vista quando vislumbrava a paisagem, mas eras tu quem
se erguia nos momentos de contemplação. Intrigava-me
essa tua serenidade. Chegavas sempre à mesma hora
sem um minuto de atraso, como se fosses um relógio
suíço desenhado à mão e pintado
em tons suaves e coerentes. Vinhas da rua da esquerda, aquela
rua onde o cauteleiro gritava e os mendigos se sentavam
com cartazes a inspirar piedade nas pessoas que passavam.
Tu mal olhavas em volta. Simplesmente passavas por ele sem
te atormentares com os seus males ou incomodares com os
olhares que os homens te faziam. No entanto, era nesse momento
que surgiam os poucos sorrisos nos semblantes carregados
dos mendigos. E era nesse momento que a rua se invadia de
serenidade.
Mal chegavas sorrias para o velho senhor que está
sempre sentado na mesa dentro do café. Conhece-lo
há muito tempo de certeza, pois noto no teu sorriso
uma cumplicidade grande. Depois, sentavas-te com todo o
cuidado, pedindo ao empregado o teu irish coffee. Bebia-lo
com tranquilidade, pouco olhando à tua volta.
Eras um marco. Eras o monumento que atraía turistas,
a catedral que passa despercebida no meio da selva urbana.
Eu não tirava os olhos de ti. Sentia medo que não
gostasses do meu olhar; que te sentisses incomodada por
um estranho olhar-te tanto tempo. No entanto, acho que nunca
reparavas. Distraias-te sozinha, com o teu sorriso. Também
eu me iria distrair, também eu me iria satisfazer,
se o pudesse olhar mais de perto, se o pudesse sentir.
Olho para ti todos os dias. Evado-me dos problemas que tenho,
das coisas más e boas que acontecem todos os dias.
É como se entrasse numa outra dimensão, uma
nova galáxia onde as estrelas são iluminadas
pelos planetas e os cometas vagueiam pelo infinito, sem
pressa, serenos. Um dia destes espero poder saber se és
mesmo assim.
Um dia destes levanto-me da minha mesa e meto conversa contigo.
Se calhar nunca. Se calhar sempre. Hoje, amanhã,
daqui a um ano ou uma década. Não importa.
Apetecia-me ir ter contigo hoje, mas não consigo.
Estás particularmente bela, com a tua estrela de
cinco pontas a dançar no teu pescoço.
De qualquer maneira, não há problema. O tempo
não passa quando olho para ti. Vou falar contigo
amanhã, se não puder ser hoje.
LUÍS DA COSTA PIRES |
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| Crónicas
Anestésicas |
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Não
tremes!
Foi com pouco Norte, bastante fatigado, que o médico
se deslocou da morte num hospital para o despertar da vida
numa maternidade.
Por entre rajadas efusivas de pistolas metralhadoras e rasgados
sorrisos africanos, magníficos dentes alvos em pele
de ébano, ultrapassada que foi aquela manifestação
civil armada, arribou ao seu posto e, pouco após,
iniciava a intervenção.
Naquele preciso momento soou um estrondo de canhão.
Tremeu a maternidade ou a mão do anestesista. Não
tremes! diz o médico para a sua própria
mão.
Mas eu não estou a tremer, doutor, responde
a jovem da cesariana.
A equipa sorriu, a Paz armada voltou às ruas
Mamã, que nome vai dar à menina?
Ainda não sei
O doutor quer dar-lhe o
nome?
Pode ser Sara 27, minha querida.
Esta estória ocorreu a 27 de Maio de 1977, em Luanda,
Angola, no decurso de mais um conflito pelo poder político
local, na abrangência da Guerra Fria e disputa pelas
riquezas daquele território, sem consideração
por qualquer direito humano! Dedico-a à família
do Dr. Azancourt de Menezes e aos demais colegas de trabalho
que mal conhecia.
Para rematar, continuamos sem saber se aquela menina, hoje
porventura, com 20 a 21 anos, se chama Sara, Sara 27 ou
simplesmente 27.
MANUEL BALONAS |
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| Imperceptibilidade |
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Tínhamos agora almoçado.
Recolheram a mesa e a tarde portanto começava. Em
pouco tempo, por esta ou aquela razão, as pessoas
iam indo embora. Eu, ao contrário, tinha reservado
aquela tarde ao repouso - e em breve ficava só, na
casa.
Sentei-me confortavelmente no sofá e comecei a ler
uma lenda de Selma Lagerlof; a lenda falava de reinados
antigos, pequenas aldeias, florestas onde não se
sabe ao certo se os animais falavam.
Pela janela, a luz que entrava era sem dúvida de
inverno e eu hesitava a cada momento se havia de acender
o candeeiro. Parecia-me porém cedo demais para o
acender; tinha almoçado há pouco tempo e portanto
não se teria sequer atingido o meio da tarde... Havia
pouco ruído na rua: não passavam camiões,
não passavam motorizadas, e mesmo algum carro que
passasse, dir-se-ia deslizar muito bem no asfalto...
A determinada altura senti que patinava o olhar pelas páginas
do livro sem assimilar o seu conteúdo, importante
concerteza (o conteúdo) para a minha compreensão
total da lenda. Julguei indicado interromper a leitura,
para mais agora em que a próxima página era
preenchida por uma dessas gravuras mágicas, em que
não se sabe até que ponto algo mais existe
para além do aparente traço infantil. Não
parei de ler, notem, por a gravura ter essa ou essas características,
mas sim, como compreendem, pela página não
ter palavras. Pousei o livro no braço largo do sofá
e levantei-me com a ideia de ir fazer mais uma paciência,
daquelas que eu inventei com as peças do Mah-Jong.
Mas os passos logo perderam o ímpeto. Naquela tarde,
o meu tempo parecia ter sido reservado àquele livro,
e assim voltei a sentar-me, retomando a leitura.
Chamando a mim toda a atenção possível,
embrenhei-me naquilo que lia. A lenda, nessa altura, descrevia
o diálogo entre o rei e o estalajadeiro acerca dos
problemas do reinado - mais à frente, teria lido
umas quatro palavras, haveria de narrar todo o esplendor
da noite.
A luz na sala escasseava - por fim resolvi-me a acender
o candeeiro. Ruídos quebraram o silêncio de
toda a casa, era alguém que tinha chegado.
DANIEL MARIA-PINTO RODRIGUES |
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Rau,
Rau, Rau
(conto erótico) |
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1.
Rau, rau, rau...
Pára com isso.
Rau, rau, rau...
Pára com isso, faz-me impressão.
Rau, rau...
Pára com essa merda, está quieta, faz
impressão! Não sejas chata.
Tem calma, estava só...
Isso agora não é agradável,
magoas-me.
Pronto, eu estou quieta, não precisas gritar.
Sai da minha cama, se não estás bem muda-te.
Isso assim magoa, poça!... e esta cama é
minha...
Eu só estava a ser carinhosa, não precisas
chamar-me chata... e eu sei que esta cama é tua.
Desculpa, mas estavas a ser chata, eu pedi-te que
estivesses quieta.
Achas-me chata, é?
Acho. Às vezes és chata.
Ai é?
É.
Ai sim? Já podias ter dito.
Já o disse mais que uma vez.
Ai sim?
Onde vais?
Onde estão as minhas cuecas?
Estão por aí no chão. Onde vais?
Não te quero chatear.
Oh! Não vais começar?
Onde estão as minhas cuecas?
Não sei.
Vou ao quarto de banho.
Espera, as tuas cuecas estão aqui...
2.
Posso entrar?
Não.
Não me digas que estás a chorar.
Não tens nada com isso.
Não vejo que seja razão para a técnica
da chantagem emocional.
Quê?
Nada.
O quê?
Porque estás a chorar?
Eu não estou a chorar.
Pára com isso.
E se estivesse a chorar, qual era o problema? Não
posso chorar? É proibido? É proibido chorar
no teu quarto de banho?
Depois dizes que não és chata.
Cala-te!
Fala baixo. Queres acordar os vizinhos?
Quero lá saber!
Bem... estou à tua espera no quarto e fala
mais baixo.
Dá cá as cuecas.
Ah! Vês como estavas a chorar!
Vou-me embora.
Por favor, pára de chorar que não
me vai dar pena nenhuma. Só me vais é enervar.
É tarde. Vem mas é para a cama.
3.
Chantagem emocional? Quando é que eu fiz
chantagem emocional? Já alguma vez fiz chantagem
emocional contigo?
Ui! Nunca! Nunquinha!
Queres dizer que estás comigo por chantagem?
Não.
Então porque é?
Hum?...
Porque é que estás comigo?
Porque é que tu estás comigo?
O quê?
Eu estou contigo pela mesma razão que te
leva a estares comigo...
Ai é?
Pois. Bem... vamos mas é dormir que já
à tarde.
Diz-me porque é que estás comigo.
Porque é que vais para a cama com esta chata.
Tu não queres ter esta discussão.
Quero, sim senhor.
Acredita: tu não queres ter esta discussão,
não neste momento. Acredita. Não sejas chata.
Tu gostas de mim?
Não, não gosto. Aliás, neste
momento odeio-te. Que tal se dormíssemos?
És tão bruto!
Pois sou.
Tão... vou-me embora.
Está caladinha e dorme.
Onde está o meu soutien?
Ouve lá, vais embora a estas horas? A pé?
Eu não vou sair agora da cama para te levar. Ainda
por cima à chuva?... Deita-te aqui, vá lá,
anda para debaixo dos lençóis, está
frio... anda...
Não percebo...
Não percebes o quê?
Às vezes sinto-te tão frio, tão
distante...
Não recomeces a chorar. Outra vez não...
Vamos acabar com a conversa. É melhor.
És assim porquê?
Assim? Assim como?
Ouve... Olha para mim...
Estamos a complicar. Deita-te aqui e sossega...
Larga-me.
Vais ao quarto de banho outra vez. Olha, eu vou
dormir.
4.
Hum?... Ah... Já estás melhor? Deita-te
aqui.
Posso deitar-me.
Claro que podes. Não sejas tolinha.
Está frio.
Chega-te aqui. Tens os pés frios. Ui, estás
com o corpo gelado.
Vamos dormir?
Vamos. Deixa-me aquecer-te. Tens as costas geladas.
Abraça-me.
Assim? Queres que te abrace assim?
Sim. Abraça-me...
Deixa-me tirar-te isto. Tira isto.
Está frio.
Eu aqueço-te. Tens os ombros frios. Tira
as cuecas.
Gostas de mim?
Hum?
Gostas de mim.
Gosto. Tens os ombros frios. Tens os pés
frios. Tens a barriga fria.
Achas-me chata?
Esquece isso. Cheiras bem.
Dá-me um beijo.
Dou-te dois. Dou-te três. Queres que apague
a luz?
Estás quente.
Tu é que estás fria.
Não estou nada.
Estás, estás.
Não estou.
Estás.
Porque é que és assim?
Rau, rau, rau...
Rau, rau, rau...
JOSÉ PINTO CARNEIRO |
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| A
Vingança |
João
Raposo era guardador de cabras já antes de nascer,
porque o pai já tinha sido e o avô também
e por aí fora. João tinha trinta e dois anos.
Era solteiro e não namorava, nunca namorara. As mulheres
eram para o João criaturas bizarras e inacessíveis,
como os gorilas no zoológico. Uma vez ou outra chegou
a ir ao baile da pinha. A mãe comprava-lhe uma camisa
clarinha, punha-lhe o fio de ouro, e penteava-o de risca
ao lado. João ficava a um canto, com uma cerveja
na mão, olhava furtivamente para as moças
que dançavam aos pares, embebedava-se devagarinho,
depois vomitava-se todo a caminho de casa e no outro dia
ao almoço comia sempre uma canja de galinha, que
a mãe sabiamente providenciava, certa que estava
da inaptidão conquistadora do filho e da sua facilidade
beberrona.
Na escola não teve namoradas, porque nunca foi à
escola; mentira, andou na escola quase um mês porque
a mãe ficava cá fora a vigiá-lo, armada
com uma tábua de caixote. Terminada a vigilância,
devido ao falecimento do marido, o João nunca mais
foi visto de orelhas de burro e a roubar a merenda dos colegas
no recreio.
É verdade que havia uma rapariga que inexplicavelmente
tinha um fraquinho pelo João, que não era
bonito, nem simpático, nem alto, nem rico, nem bem-educado,
nem elegante, nem inteligente. Também é verdade
que a Jacinta nunca passou da terceira classe, os pais viviam
miseravelmente e a alcunha de a noiva do Frankenstein
deixava adivinhar a sua beleza.
Jacinta uma vez esperou o João à porta de
casa e disse-lhe que o melhor era casarem, pois nenhum arranjaria
mais alguém. O João, atónito, afónico
e apavorado, desatou a correr e esteve quinze dias sem vir
a casa; Jacinta desistiu do João, jurou vingar-se
da humilhação e emigrou para a Suiça
onde dizem que arranjou um transmontano perneta.
Em matéria sexual, João era tapadérrimo.
Certo dia passaram um filme pornográfico na recreativa
e João ficou confuso com aquele festival de grunhidos
e gemidos e mulheres que faziam desaparecer a pila dos homens
quando se sentavam em cima deles. No fim, e apesar de convidado,
o João não foi para as traseiras com os outros
rapazes bater uma punheta colectiva.
O tempo passou e o João nem sequer experimentou nas
cabras, quer dizer, sentou uma cabra em cima dele, mas não
sentiu nada. Quando raramente tinha uma erecção
pensava que era um inchaço motivado por uma doença
qualquer ou uma picada de insecto.
Mas neste verão tudo iria mudar de figura. As festas
populares da aldeia traziam muitos emigrantes com carros
novos, penteados novos, simpatias políticas novas,
credos religiosos novos, namorados e maridos novos, cornudos
e divorciados novos, amigos novos. E também veio
a Jacinta, muito perfumada, muito carregada de jóias
de todas as cores, muito loura, com um lindo canito cabeludo,
com um Mercedes branco, com um crème brilhante nas
pernas, com uma amiga, a Sara, muito bronzeada, muito peituda,
muito cavalona, com saias muito justas, com calças
muito justas e com uma voz forte e áspera, a falar
francês da zona de Tânger.
Jacinta já tinha enterrado o esposo e agora era ela
quem dirigia o night club nos arredores de Genebra. Na noite
forte das festas, abrilhantada pela boys band os casanovas,
Jacinta e a sua amiga Sara apareceram deslumbrantes e irresistíveis
com vestidinhos do mesmo modelo, um preto e o outro vermelho,
muito penteadas, muito enlacadas, muito maquilhadas, muito
salto-altadas. João estava lá, com a sua camisinha
branca às risquinhas azuis, o fio de ouro de infância,
a risca ao lado perfeita, com a colaboração
do óleo do cabelo que parecia gel, e a cerveja na
mão, no canto mais escondido do recinto.
Por entre o arame farpado das bocas porcas, piscadelas de
olho, e o risinho invejoso das Marias da terra, Jacinta
descobre o João, a contar os trocados para mais uma
cerveja. Leva a Sara consigo e cumprimenta calorosamente
o rapaz que só reconhece pela voz, apresenta-lhe
a Sara e depois de alguns minutos de conversa onde o João
só fala com acenos de cabeça, a espalhafatosa
viúva retira-se deixando o João entregue à
mulher de vermelho. Sara fala um português de engate
elementar, feito de nome próprio, da idade mentirosa,
do tamanho do busto, e de convites, agradecimentos e obscenidades.
João, sempre de cabeça baixa a babar-se para
dentro do decote quase descosido da Sara, vai dizendo que
sim, que gosta das cabras, que gosta da aldeia, que gosta
de canja de galinha, e até, para grande surpresa
sua, experimentou um oui quando a Sara o convidou para dar
uma volta. Os rapazes boquiabertos não acreditaram
que era o João das cabras que se pisgava do baile,
braço dado com a boazona da francesa.
Sara levou o joão para a casa da Jacinta, para o
quarto da Jacinta e para a cama da Jacinta. O moço
não sabia o que fazer mas a Sara decidia e comandava
tudo. Deitou o pobre pastor na cama, despiu-o entre gracejos
árabes e chupou-lhe o órgão, para vergonha
do João que não esperava ser atacado logo
ali por aquela doença do inchaço. Entretanto,
segurou-lhe o membro, besuntou-o com um creme escorregadio,
e fê-lo deslizar pelo seu recto folgado de experiente
travesti. Ainda houve tempo para o João ser enrabado
pelo atencioso Mohamed, muito delicado, apesar da voz agora
ainda mais grossa. João lembrou-se então do
filme pornográfico que vira, e por isso gemeu e grunhiu
como melhor soube.
Com a promessa de um ordenado dez vezes superior ao que
ganhava com as cabras, não foi difícil à
Jacinta convencer o João a ir trabalhar para a Suiça
como empregado de mesa no seu bar nocturno.
Nem foi de espantar, três meses volvidos, que o João
tenha rapado todos os pêlos do corpo, conseguido um
quarto só para si, e seja agora um dos rabos mais
conhecidos e cobiçados dos arredores de Genebra,
mais o seu suplemento sonoro de excitantes gemidos e grunhidos.
ANTÓNIO MANUEL REVÊZ
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| Ainda
bem que vieste |
Ela entrou no carro e fechou a porta atrás de si
e olhou em frente e perguntou: para onde me levas?
Como se ele soubesse, ou quisesse, ou pudesse.
Ela passou diante do carro, não olhou uma só
vez para ele, abriu a porta, entrou, fechou a porta e voltou
a perguntar: para onde me levas? Não sabes? Pouco
importa, leva-me de aqui.
Como se fosse possível fugir para um sítio
que não fosse sempre aqui.
Foram e entraram num quarto branco e vazio e cheio de silêncio
e um deles disse ao outro:
Vou-te beijar a boca como se fosse o sexo de uma mulher.
Beija-me a boca como se beijasses o sexo de uma mulher.
E com as minhas mãos vou-te entreabrir a boca como
quem abre o sexo de uma mulher. Sim, pode ser o meu.
E o outro disse:
Gostas? Eu gosto. Queres gostar mais? Eu quero. Fecha a
boca um pouco mais. Não tenhas medo de suspirar.
E quando te quiseres vir, quando já não aguentares
mais, quero que te venhas sobre as minhas costas nuas, descobertas.
E mais tarde, muito mais tarde — teriam passado alguns
minutos — um deles disse assim:
Já reparaste na diferença de temperatura entre
as diferentes partes da tua pele. O que quero dizer? Repara.
Junto à tua boca é mais quente, nitidamente
mais quente do que aqui onde o pescoço se agarra
ao tronco. Não há termómetro que consiga
medir esta diferença. Os lábios, sim, experimenta.
Sentes agora? E as minhas mãos de nada servem senão
para escrever e acariciar. De resto sou completamente desajeitado.
Deixo cair as coisas no chão. Bato com elas por todo
o lado. Vês como estão. Sentes como estão
agarradas a ti para não me deixar cair.
E depois levantaram-se, compuseram-se, olharam-se nos olhos,
que os tinham muito tristes — uma tristeza que não
passa nunca — sairam do quarto, desceram pelo elevador
onde os espelhos inutilmente se reflectem a si próprios
e ao vazio e entraram no carro fechando as portas ao mesmo
tempo atrás de si.
Nem ele, nem ela quis dizer a primeira palavra a que se
seguiriam muitas outras e ficaram assim até chegarem
ao lugar onde tinham de ir, cada um a sentir que o outro
ia dizer a frase, a palavra, e não dizia porque esperava
que o outro a dissesse e não dizia.
Melhor assim. Talvez ternura. Ainda bem que vieste, talvez
dissessem, diziam.
PEDRO PAIXÃO
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| Spaghetti
Bolognhese |
Arturo Doninha enfiou brutalmente e decididamente a chave
na ignição fazendo soar os cilindros do seu
potente carocha azul e arrancou a todo o vapor em direcção
a Oeste. Desta vez iria ser a valer e que ninguém
achasse que ele era um banana. Afinal de contas era um homem
ou era um rato? Bem… de todas as formas, para bem
ou para mal, a coisa ia ser decidida de vez ou então
bem podia encher as malinhas de queijo parmesão e
partir para o Brasil.
Um ligeiro furo na roda dianteira esquerda atrasou a sua
marcha para casa do famoso cineasta premiado com menções
honrosas de participação Agostino B. e da
sua concubina Manuela O., escritora leccionada e consagrada
por todos os analfabetos cultos da nação,
e que estavam ou deveriam estar a ultimar os preparativos
para a grande produção cinematográfica
do século em Portugal que contava já com um
atraso de várias semanas.
Tudo parecia até então funcionar às
mil maravilhas, Arturo arranjou a massa e os dois velhotes
entraram com a parte criativa atraindo ainda mais massa.
Juntos contavam fazer o “Spaghetti Bolognhese”,
um drama estático sobre um restaurante transmontano
especializado em pratos de carne de bovino bem moída,
explorado por um cozinheiro francês licenciado pela
Sorbonne em Culinária Paisagística. Os actores
seriam modelos bem conhecidos das capas de revistas francesas
e portuguesas e a equipa técnica contaria com especialistas
de som de Top Class de um país de leste ainda mal
refeitos da ressaca do comunismo e já bêbados
de capitalismo. Arturo tinha o papel do escravo abissínio:
assegurar a massa, o cenário, o spaghetti, os actores
e manter toda a gente feliz, bem disposta e pronta para
o trabalho.
Encontrar esparguete com dois metros de comprimento para
ser sorvido pela actriz principal num plano de quinze minutos
não foi tarefa fácil. Encontrar tomates israelitas
com polpa suficiente para serem obsessivamente filmados
durante um refugado, enquanto uma voz-off lia um texto de
cinquenta páginas estabelecendo um paralelismo entre
a vida e paixão de Jesus Cristo e o lento derreter
do tomate, talvez tenha sido um pouco mais fácil.
Pêra doce não foi concerteza convencer os caminhos
de ferro a reactivar uma linha em Trás-os-Montes
para uma curta sequência em que um par romântico
contempla pausadamente a Serra de Bornes viajando num lento
comboio de início de século comparando metaforicamente
os verdes campos e a cultura de espargos no mundo de Lewis
Carrol.
Tudo exigências dos dois criativos. Tudo arranjado
por Arturo às vezes com sacrifícios pessoais,
mas sem uma queixa, sem um lamúrio que fosse, sem
raiva, sem sequer desejar a morte aos dois “sodomitas
que me arruinaram o orçamento para fazer uma merda
que ninguém vai ver”, sem nunca pensar mal
deles…
Enfim, tudo apontava para o sucesso deste drama estático
de duas horas e três cenas, com elogios dos críticos
babosos, desprezo dos “grunhos insensíveis
que fazem a populaça” e, talvez até,
arrebatar um Gatinho-de-Caca no Festival de Cinema de Berlim,
quando de repente os velhos adoecem. Ele com cegueira, ela
com artrose nas mãos.
A abordagem ao casalinho de corujas velhas deveria ser decisiva
e final sem ser muito brusco. Gestos rápidos e eficazes,
poucas palavras. Tinha passado dois dias a rever toda a
obra cinematográfica daqueles dois só para
ganhar uma raiva contida e tinha-o conseguido. Agora sabia
o que queria e chegara o momento de pôr os pontos
nos is. Não, ele não era banana, ele não
era o moço de recados de um trabalho sempre adiado.
Sentia se viril, macho, capaz de desvirginar uma manada
de vacas se tal não constituísse crime.
No seio de pensamentos confusos e um pouco alcoolizados,
Arturo estacionou o carocha azul no pátio do solar
“Manegostino”, foi acompanhado por Jarbas (!!)
até um varandim onde ao som de Bach repousava o carunchoso
casal e, com um estranho sorriso nos lábios, disparou
à queima roupa dois tiros de 44 em cada um acabando
de vez com o sofrimento. Soprou o cano ainda quente da arma
e num ímpeto irreflectido de falta de frieza usou
as pernas de Jarbas (!!) para pregar na porta de entrada
um cartaz em technicolor que dizia FIM.
PEDRO CARREIRA
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O
almoço |
Uma bomba explodiu esta manhã num restaurante situado
na Baixa comercial de Lisboa. O engenho era constituído
por quatro quilos e meio de plástico explosivo. A
ementa do restaurante, que ficou completamente destruído,
era constituída por pratos de carne e de peixe. Segundo
apurámos junto das autoridades, os pratos do dia
eram lulas à sevilhana, trutas cozidas ou grelhadas,
com batatas, escalopinhos à francesa, com guarnição,
e vitela à jardineira. Como entradas, os clientes
podiam optar por queijinhos frescos, tartex, pasta de sardinha
e, claro, manteiga com ou sem alho, sempre agradável
com pão do dia anterior tostado no forno e cortado
às fatias pequenas.
A especialidade da casa, em termos de peixe, era o Bacalhau
à Lagareiro com batatas a murro — um conto
e trezentos. Em termos de carne, o cliente podia optar por
um coelho bêbado acompanhado de puré com passas
e couve galega, ou cabrito à padeiro tostado no forno
rodeado de fatias de pão delambido em azeite —
mil e quatrocentos e mil e quinhentos escudos, respectivamente.
Naturalmente, da ementa constavam ainda os pratos mais convencionais,
que qualquer restaurante de 2ª categoria tem. Bife
da vazia com batata, arroz e um bocadinho de cenoura raspada.
Bitoque com ovo. Pescada descongelada pescada e congelada
na costa de Madagáscar. Filetes de pescada com arroz
malandrinho.
Como sobremesas, os frutos da época ou então
os seguintes doces: pudim, baba de camelo, tarte da avózinha,
arroz doce.
A explosão provocou sete mortos e dezena e meia de
feridos.
RUI ZINK
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| Foi
uma sorte |
Avançávamos pelas ruas estreitas que vão
dar ao tribunal, ruas que vão estreitando sempre.
íamos com pressa, quase a correr, para não
perder a sentença. mas subitamente reparámos
que um homem à nossa frente, carregado com dois sacos
pesados, ia avançando e vertendo quase imperceptivelmente
o pó dum dos sacos.
— cuidado! – disse o meu interlocutor –
pode ser veneno, maneira discreta de liquidar ratos, crianças,
gatos, sabe-se lá a potência do meio?
o homem avançava devagar, derreado, era decerto
para não atrair suspeitas. o meu interlocutor decidiu-se
a levar o dedo ao pó, cheirou, estacou, e levou
à boca ... — é açúcar!
– disse em voz baixa, para o homem não ouvir.
— é açúcar! de resto, veja
o formigueiro! o homem deve passar aqui todos os dias!
o homem deve passar aqui todos os dias, e todos os dias
deixa cair um pouco de açúcar, ou como é
que se justificava este formigueiro? isto é um
castigo!
— ou uma missão – disse eu, –
o homem está a atacar a cidade por baixo. as formigas
comem tudo. roem lentamente as vigas, as travessas, as
tábuas...
— o melhor – disse o meu interlocutor –
é abordar o homem. eu vou, eu vou.
e avançou decidido. eu fiquei um pouco para trás,
e um pouco perplexo. mas nesta altura já ele tinha
chegado à beira do homem. – desculpe, tem
horas?
o homem olhou com ar cansado, pousou os sacos, limpou
a testa e disse : – não, não tenho.
e boa falta me faz.
então o meu interlocutor, tal como tinha procurado
fazer comigo, tentou e conseguiu vender-lhe um relógio,
muito barato. foi uma sorte.
ALBERTO PIMENTA
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| Aventuras
e desventuras do Corpo Humano |
Se há valor que todas as pessoas possuem –
seja qual for a sua raça, credo, partido, idade,
estado civil, conta bancária e situação
fiscal – é o corpo humano. O corpo humano usa-se
muito. Haverá quem o use pouco ou lhe dê mau
uso mas, em regra, ser detentor de um corpo humano dá
jeito a qualquer um.
Aqui ficam três variações acerca do
tema ainda actual, apesar dos avanços tecnológicos.
1 – MULHER FATAL
Temos o caso de Dulcinídea Agualva Coelho, senhora
de um apreciável corpo humano. Em seu redor vidravam-se
olhos de admiração e gula. Poderá
pensar-se que vivia ela feliz e vaidosa de suas graças,
mas não. Ao contrário, mortificava-se a
fascinante por ter tal corpo humano. Incompreensível?
Tudo é incompreensível antes de se compreender.
E havemos de ser compreensivos para quem iniciara uma
carreira política: esfalfava-se a falar nos comícios
e ninguém escutava pêva – distraíam-se
a mirar o corpo humano dela. Até quando apareceu
na televisão, onde só a mostraram meio-corpo
humano, foi como se tivessem desligado o som.
Decidiu então a bem-vista mudar de corpo humano.
Fácil: alambazou-se de doces, gorduras, refugados
com molhinho e outros esmeros dietéticos. Conseguiu:
foi aumentada em quarenta e seis quilos.
Agora sim. Poderia expressar as suas lucidíssimas
ideias sem que a atenção dos circunstantes
fugisse das palavras para o corpo humano. Assim aconteceu:
eram todos ouvidos. Incluindo o presidente que interpelou
o acessor mais próximo: “A gorda é
torta, não é?...”
2 – CORPO PRESENTE
Seria injusto injusto esquecer Sidónio Wilson
Costa, às vezes chamado Sidónio W. C. numa
gracinha de merda. Bom homem. Amigo do seu amigo e da
humanidade em geral. Talvez aí se radicasse a sua
paixão por velórios, hora de adeus a corpo
humano que ultrapassava o prazo. Velório era com
ele. Tomoul-he o gosto no bota-fora de um tio-avô:
lá formigavam amigos e parentes que não
via há muito, trocaram-se impressões e números
de telefone, foi giro.
Não tardou o passamento do primeiro marido de sua
cunhada Alísia. Da família ninguém
avançou. Nem um só dos participantes era
de suas relações, mas travou conhecimento
com pessoal simpático e bem disposto. Boa noite.
Daí em diante foi um ver se te avias. Comnprou
mesmo um guarda-roupa próprio para velório,
desde o luto solene a conjuntos mais desportivos, porém
respeitosos. E sempre, sempre, flores. Nunca Sidónio
apareceu a um extinto sem lhe levar coroa, palma, ramo
ou raminho, por vezes uma flor isolada mas significativa
– atenção graduada consoante a figura
central fosse um amigo, simples conhecido ou não
o conhecesse de lado nenhum.
Tudo isto recordam os velhos companheiros, agora à
conversa no átrio da igreja onde repousa o seu
corpo humano. Reina a animação. Velório
assim ele não ia perder. E lá está.
3 – O HOMEM INVISIVEL
A mais extraordinária história de um corpo
humano tem sido mal contada. A verdade-verdadinha é
que, no início da sua carreira, o Homem Invisível
só era invisível em part-time. Perguntar-se-á:
o que terá, então, motivado a opção
por uma invisibilidade a tempo inteiro? Se nos lembrarmos
do que aparece e semidesaparece num corpo humano, mesmo
de sujeito visível, chegamos à resposta:
saias.
Exactamente: o Homem Invisível enamorou-se. E foi
correspondido.
Havia meses que ele, sem dar nas vistas, se enfiava nos
aposentos da jeitosa Graciliana Emília Coimbra
B. e via tudo. Uma noite, brilhava ela em resplandescente
nudez, o Homem Invsível descaiu-se e suspirou.
Assustada, ia a esbelta escapulir-se, mas ouviu suplicar:
“Aguenta aí!”
Conversaram, conversaram, conversaram – ele com
os olhos nela, ela com os olhos no presumível local
onde ele se encontrava. Nasceu uma paixão. Nas
horas da despedida não sabia a moça onde
se agarrar, mas pedia sempre: “Vai aparecendo.”
Ternura de noites. Simplesmente, não era mulher
só de diálogo, o amor, como a política,
não se confina nos limites da conversa. E começou
com exigências. Queria vê-lo. Senti-lo. Tanto
o seringou em tais propósitos que, incauto, o Homem
Invisível mostrou o corpo humano todo. Aí,
a ingrata matou o romance com aquela frase ainda hoje
em voga : “Ai, filho, desaparece-me da frente!”
Desde então o homem invisível nunca mais
se deixou ver.
MÁRIO ZAMBUJAL
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| Carta
de amor sem grandes regras de ortografia |
|
E eu que não gosto de escrever, e que nunca escrevi
cartas de amor, e não é por achá-las
ridículas, não me venhas com o teu Fernando
para cima da minha pessoa, e olha bem o estado a que eu
cheguei, a tentar fazer trocadilhos com coisas que pouca
piada têm, e talvez acabe já esta frase, antes
que a frase acabe comigo, e vê bem o estado em que
eu fico quando escrevo sobre ti, ou sobre mim, ou para ti,
e já pareço aqueles escritores de que tanto
gostas, analfabetos de primeira apanha, que nunca escrevem
«de primeira apanha» por serem gente tão
culta, e tão brilhante, e tão diferente, e
gente que muito escreve, e escreve sempre tanto, que vírgulas
e pontos finais é coisa que não lhes interessa.
Vai à merda. Desculpa, estou a ser brusco de mais,
ou talvez de menos, e eu só quero acertar —
como se costuma dizer — em cheio, bem em cheio na
boa merda que tu és. Desculpa outra vez, estou a
ser demasiado directo, ou sincero, e tu sempre gostaste
de mim mais calmo, ou meigo, ou brando, ou qualquer coisa
que assim fosse, nesse meio termo entre o homem e o veludo,
e quase me metias num robe e num par de chinelos, a fazer
chás de camomila e a prometer-te as Venezas todas
deste mundo. Então eu digo, agora digo, tudo aquilo
que queria escrever desde o início, não da
carta, nada disso, a carta comecei-a agora mesmo, mas desde
sempre, que é desde que te foste embora: ainda não
sinto a tua falta.
É estranho porque continuo a acordar contigo, e não
é bem acordar porque pouco durmo, ou quase nada,
é mais sentir que ainda aqui estás, que ainda
aqui estás exactamente por já não estares,
não sei se compreendes, se calhar preferias uma prosa
mais arranjadinha, mais poética, talvez mais poética,
tu sempre amaste os maricas dos poetas, aqueles que amam
e tremem com a caneta e muito pouco com a alma que se gasta
e se arruina. Mas digo apenas o que digo. E digo: ainda
não sinto a tua falta.
Custa entrar nos sítios onde te vi e custa ainda
mais ver-te nos sítios onde agora entro, mas sem
ti, e tu sempre com outros, que não eu. Não
são ciúmes, ou talvez sejam, eu sei lá,
talvez tu possas dizer, tu que sabes tudo, e de tudo, e
de todos, mas não gosto de te ver onde me vejo também
a mim. Só por isso te envio uma lista onde escrevi
os hábitos das minhas semanas, e agradecia —
até peço por favor — que não
estivesses lá quando eu estivesse. Respeitei as sextas
e os sábados, porque sei onde tomas café,
onde bebes muito, e talvez jantes, não me importa
com quem, ou talvez me importe, mas não vale de muito
explicar esse muito que me importa, e para mim só
deixei os dias da semana, de segunda a quinta, e os horários,
e os sítios onde gosto de ir, e espero que aos mesmos
não vás, e se quiseres muito ir, vai só
depois de eu ter saído, ou antes de eu ter entrado,
ou então avisa, eu sei lá.
E só de pensar o quanto ainda gostava de estar contigo
— Deus me perdoe: diz lá o que é que
eu merecia por ser tão estúpido? Precisamente,
e o que estás a pensar ainda é pouco: multiplica
por dez e acrescenta-lhe outro tanto, e ainda é pouco.
Merecia pior, ou melhor, depende do que pensares, e eu,
como penso bem as coisas más que tu pensas sobre
mim, digo pior, muito pior, e talvez acerte, e acerto mesmo.
As saudades aguento-as bem, são coisa pequena e muito
minha, tu sabes como é, ou como são, sempre
me soube arruinar sem companhia, e sou um homem como os
homens devem ser, e não choro por dá cá
aquela palha, apesar de não saber por que razão
dizemos «dá cá aquela palha».
Não preciso que sintas pena, eu é que devia
sentir pena de dizer que não sinto a tua falta, mas
a falta que tu me fazes. Não é a mesma coisa,
tu julgas que é, mas não é: e se fosse,
seria alguma tragédia?
Não há nada que relembre em ti que ame, que
aprecie — quero dizer, mais do que apreciava outrora.
Pois bem, a cor dos olhos, querias que eu dissesse alguma
coisa sobre eles, não querias? Mas são banais,
vulgares, e tão bonitos que eles eram — mas
só quando eram meus, minha linda. E os lugares onde
estivémos, que eram nossos por neles estarmos e não
noutros, são agora vazios, porque sempre cheios de
gente, gente que não interessa, por nunca ter interessado
tão pouco como agora. E as frases que tu dizias,
e eu ficava a pensar que talvez tivesses razão, uma
razão muito tua, mas uma razão como outra
razão qualquer, e pensava na beleza das palavras
que dizias, por não serem minhas, e por sempre ter
amado tudo aquilo que é meu e não me pertence.
Amo-te como não posso, e a distância é
pior do que os amantes que se amam à distância.
Talvez sintas alguma coisa, quem sabe uma pontada nas costas,
minha jóia, meu amor, minha linda, minha rica, e
ainda te ris das coisas que eu escrevo? Devias ter vergonha,
não muita, apenas a suficiente para nunca te rires
dos teus e dos meus risos, especialmente dos meus, aqueles
que um dia me viste rir só para ti.
É noite e já pouco digo que valha a pena escutar,
ou ler, ou mesmo rasgar. Ainda não sinto a tua falta,
juro-te pela minha rica saudinha — e que um camião
TIR me leve pela estrada e me ensine a voar pela noite fora.
Mas sei que irei sentir. A falta que ainda não sinto
é pior do que a falta que chegará por um destes
dias. É coisa estranha e melancólica, que
se apossessa do corpo numa sinfonia em crescendo —
e tu desculpa lá esta última frase, que a
copiei sem vergonha de um livro muito mau que tu me deste.
Hei-de sentir a tua falta. E antes que ela bata à
porta como batem todas as faltas, num choro tão feio
e tão chorado a despropósito, espero que tu
batas primeiro. E não direi para ser tudo como dantes,
mas melhor, ou pior — sim, pior, pior para mim, porque
eu até nem me importo de usar robe, e chinelos. E
se isso te fizer feliz, muito feliz, mesmo feliz, nadaremos
também como peixes numa chávena de chá,
assim que a água dos canais nos inunde o quarto a
camomila.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
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Café
e cigarros
(ao balcão do Aramis) |
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Bem ela talvez fosse mesmo por causa dessa treta edipiana
talvez fosse isso mãefilho talvez eu tinha um isqueiro
algures tens um? obrigado talvez fosse por isso que vivíamos
juntos e ela era linda ela era muito quando acordava quando
dormia o modo como comia o cabelo ficava na almofada e quando
acordava os olhos a luz da manhã interessava se por
fotografia andava sempre com uma câmara e fotografava
tudo sobretudo pessoas rostos enfiada em filas de gente
no autocarro na rua parava as pessoas perguntando o nome
e pedia para as fotografar no café em qualquer lado
encheu as paredes de retratos e sabia o nome de toda aquela
gente coleccionava as como família cheguei a perguntar
lhe o nome da velha com a pala no olho do rapaz albino e
voltar a perguntar semanas depois e os nomes coincidiam
da mongolóide dos sósias de gente famosa ela
memorizava todos aqueles rostos e nomes queres mais café?
só dois cafés e um cinzeiro sim obrigado passava
horas em frente ao espelho punha roupa tirava fazia poses
caretas ria chorava chamava me não sei se te estou
a maçar estou não? não pois não?
falo sempre do mesmo eu sei não tenho ordenado os
meus dizeres não numero nem catalogo o que digo não
que não tenha vontade disso por vezes sinto essa
fúria profunda e portanto contida de catalogar tudo
o que digo poderia numerar ou nomear é certo mas
não é fundamental a ordenação
quando aceito que acabo por dizer sempre a mesma coisa ou
mesmas coisas daí que a ordem é irrelevante
no caso sendo agora aceite cíclico o meu pensar chamar-lhe
pensar perigo estatístico que há nisso por
exemplo agora há alturas em que não sei se
estou no sótão ou se na cave há umas
escadas isso é certo sobem ou descem é certo
mas sinto-me agora sempre tão não sei como
que posso até estar no sótão até
pode ser verdade mas sinto ainda a claustrofobia de ter
descido à cave mais tretas psicológicas então
páro simples páro simplesmente pelo tratamento
estatístico sei que perco longos minutos a limpar
os dedos negros talvez de tinta mais tarde preocupo me com
as conclusões longos minutos a pentear-me com os
dedos passando a mão ao longo dos cabelos sujos a
excitar a gordura longos minutos à janela a embaciar
o vidro a noite escrita a néon na lufa-lufa sim eu
sei só do sótão consigo ver os reclamos
luminosos assim na noite horas no sotão a pegar em
livros por vezes sem os ler apenas mudá-los de lugar
tenho um sofá ao comprimento do sotão uma
mesa junto à janela um televisor não muito
grande nem muito antigo sobre uma caixa horas a olhar pelo
vidro da janela quando ela por vezes subia a escada vinha
quase sempre perturbada apenas ligava o televisor e sentava-se
no sofá e calava-se é-me de facto caro falar-te
disto mas tenta compreender ou fazer compreender porque
o que vai nesta cabeça não é nada de
bom pode enfim ou então andar agora assim é
normalíssimo mas não pode ser é pedir
muito só quero que ela não me envie dia sim
dia não as fotografias que tira é demasiado
parte-me o coração em três olha para
esta fotografia olha como ficavas se a tua mulher o andasse
aí a dar e te enviasse as fotografias? é demasiado
olha esta é de arrasar qualquer um quando tornar
a passar por esse sacaninha do Cupido atiro-lhe pedras mais
café? traga só um obrigado comprei o 38 ali
perto da praça naquela casa toda gradeada muito caro
não olhei a despesas depois da visão que tive
sim foi lindo uma visão tempo de assassinos bom velho
crime passional de chupar corações cuspir
olhos inteiros foi lindo em frente a um motel no carro a
ouvir rádio e agora as notícias e agora os
compromissos publicitários e essa merda toda e agora
a minha vez trinta e oito limpinho carregadinho de balas
a brilhar na noite lindo devagar pelo parque do motel muito
devagar mesmo o quarto 3A bato calmamente à porta
e recuo uns passos e viro me para o parque de estacionamento
um gajo vem à porta e talvez em camisola interior
sim e um fio de ouro com uma cruz enorme o paneleiro vê-me
de costas e não se apercebe do que se passa e olha
para ela sentada na beira da cama daquele quarto 3A minúsculo
e nojento e agora eu viro-me e espeto-lhe um tal balázio
naqueles cornos de paneleiro que atira-se para trás
ou escorrega no tapete o sangue no ar como confetis a cruz
salta-lhe para a boca e morre aí morre ela desata
aos gritos e corre para a máquina fotográfica
não sei se eu disparo primeiro mas quando o flash
explode julgo que já está na parede o sangue
dela tenho de lhe partir os dedos para tirar a máquina
uma visão mas foi lindo reveladora como as visões
são tens cigarros? os meus acabaram. L
MIGUEL MARQUES
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| O
Ás de Espadas |
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Passeávamos na cidade, tão desconhecida, quando
reparámos na ruela. Nada tinha de especial, era velha
e mal amanhada como há tantas nas zonas ribeirinhas
das cidades portuárias, e nem sei o que nos decidiu
a enfiar por ela. Lembro me de a percorrermos, fascinados
com o seu serpentear por entre casas escurecidas pelos anos
e pelo salitre quando, já bem internados no casario,
deparámos com um grupo de miúdos que fugiu
espavorido ante a nossa aproximação. Achámos
graça à ideia de os termos assustado e continuámos.
No entanto, fiquei com a sensação de que um
dos miúdos, a olhar-nos semi escondido no vão
de uma porta, tinha qualquer coisa de estranho, de perturbante
— seria uma cabeça demasiado grande? Ou demasiado
velha? — talvez o olhar, incrivelmente gelado, ou
então o cabelo, cheio de peladas e tufos amarelados...
Sei que tive um arrepio, um desconforto, como se acabasse
de ter um mau presságio, a adrenalina a deixar-me
um sabor acre na boca e os sentidos alerta. Claro que nada
disse à minha amiga, não fosse apoquentá-la
com temores infundados.
Continuámos a avançar pela ruela, cada vez
mais decrépita e miserável, até que
constatámos termos metido por um beco sem saída.
A ideia de dar meia volta e voltar a passar sob o olhar
dos miúdos incomodou-me. Irritava-me aquilo não
ter saída e constrangia-me deixá-los perceber
que nos tínhamos enganado. Como mesmo ao fundo do
beco havia uma taberna, sugeri irmos aí beber uma
cerveja. Desse modo, parecia que tínhamos lá
ido de propósito e, quando acabássemos, talvez
os miúdos já tivessem desaparecido.
Ao passarmos a porta de entrada quase petrificámos
de terror: sobre um balcão, que ocupava toda a direita
de um longo corredor, estavam assentes dois homens, só
tronco e cabeça — sendo esta algo de horrível,
de tão disforme —, em conversa jocosa com um
outro, de pé, encostado à parede do lado esquerdo,
que parecia um pirata, daqueles fuçanhudos e cara
de mau. A nossa reacção imediata foi de náusea
e apeteceu-nos fugir dali o mais depressa possível,
mas como, quando estacámos, na hesitação
do nosso pavor, eles viraram a cabeça e nos olharam
com ar de gozo, enchemo-nos de coragem e avançámos.
Passámos por eles e, no fundo do corredor, virámos
à esquerda, para uma sala enorme, tipo casa de pasto,
pejada de mesas em fila, cobertas com toalhas aos quadrados
vermelhos e brancos e rodeadas de maciças cadeiras
de madeira. Todas as mesas estavam ocupadas menos uma, no
centro da sala, e foi a essa que nos sentámos.
Olhando em volta, parecia um baile de máscaras, ou
antes um velho quadro de pintura flamenga, cheio de seres
grotescos, de nariz vermelhudo e aspecto rude, atascados
às mesas a lambuzarem-se com batatas em azeite e
jarros de vinho. Por entre aquela multidão bizarra
havia um indivíduo que me causou uma viva impressão
de mal estar. Reparei nele no momento em que o taberneiro
vinha ter connosco e, ao passar junto a ele, lhe disse,
reverencialmente, que o cozido estava quase a sair.
Sentado a uma mesa comprida, junto à divisória
da cozinha, e rodeado de personagens de Bruegel meio alcoolizadas
e rústicas, mantinha um ar impassível, numa
espécie de dignidade aristocrática que destoava
tanto mais quanto os seus pares, embrutecidos pelo vinho,
se compraziam em javardices brejeiras e degustativas. Vestia
de vermelho escuro e o seu rosto, afilado, terminava por
uma barbicha ruiva, em bico, que ganhava também tons
avermelhados. Mas eram os olhos, esverdeados, de um frio
metálico e uma profunda ironia, que mais impressionavam.
Era impossível decifrá-los mas, quando ele
nos olhava, parecia que nos penetrava e nos lia mesmo nos
recantos mais obscuros da alma. A sensação
era tão desagradável que me obrigou a inventar
um qualquer diálogo com a minha amiga na tentativa
de me furtar à consciência da sua presença.
O efeito, aliás, devia ser geral, pois sem nunca
abrir a boca e com um simples olhar mostrava suficiente
poder para obter o que queria, sem precisar de mais explicações.
Era realmente de um domínio impressionante.
Felizmente o taberneiro, corcunda e a coxear de uma perna,
veio atender nos. Pedimos duas cervejas e perguntámos-lhe
o que havia para comer, qualquer coisa ligeira, e ele, pano
branco no braço esquerdo, ia esfregando as mãos
uma na outra, enquanto nos fazia os encómios dos
vários acepipes disponíveis. Escolhemos umas
tapas de polvo e o taberneiro rodou à volta da mesa,
como quem se dirige à cozinha a encomendar o nosso
pedido. No momento em que passa por detrás da minha
amiga, inadvertidamente, agarra na cadeira onde ela está
sentada e, com ela em cima, ergue-a e atira-a pelo ar, porta
fora. Levantei-me rápido, a balbuciar, estupefacto,
um “Qu... que é isto?” — de repente,
desaba sobre a sala um chinfrim insuportável, com
toda a gente a rir ruidosamente e a gritar piadas idiotas,
menos o tipo de vermelho, ainda e sempre impávido
e imperturbável sob a fria capa do seu olhar —
e tento ir ter com a minha amiga, mas o taberneiro agarra-me
com uma força descomunal e, forçando-me a
sentar, diz-me com voz maviosa que adora a minha presença,
que sou muito bem vindo à Taberna e que o meu pedido
vai já ser atendido, ela é que não,
tinha de a perder, só me traria desgraças...
Desesperado nem o ouvia, esperneava o mais que podia, tentando
soltar-me e fugir para longe dali.
Foi então que acordei, estremunhado, a roupa da cama
toda no chão. Acendi a luz e, sobre a mesinha de
cabeceira, repousava um Ás de Espadas... l
ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL
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| Os
Dias Virtuais do Porto |
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Passar a pé na Rua da Constituição
às quatro da manhã dá para aprender
muitas coisas. Quem nunca veio, Santos Pousada, Alegria,
Marquês, Faria Guimarães, etcétera,
mirone absoluto observando, na lentidão interessada
de comando de vídeo numa qualquer Playboy, o ritual
do regateio “Por menos de meio conto nem a tua mãezinha”?
Aquele Ford Fiesta de condutor elegante, passível
de ser encontrado em qualquer Valhamedeus, em qualquer Anikibóbó,
em qualquer Quando Quando, em qualquer Via Rápida,
nunca mais de vinte e cinco anos, insuspeitável,
charmoso até. Esse Ford Fiesta quantas vezes não
dá a sua voltinha por ali, cheio de vento nas calças,
cheio de isqueiro para essas senhoras? Coisas do Porto…
Mas o último grito é vir por ali a pé
a rir por dentro. O Fiesta é chunga, o Fiesta é
um azeiteiro, o Fiesta é carne para canhão,
é o palhaço rico de um circo efémero,
e o valor dos palhaços de circo nunca lhes é
reconhecido. Serão eternamente tristes, pessoas invisíveis,
fantasmas. A verdade é que o Porto é uma barraca
de lona cheia de cavalos de trote e de contorcionistas,
uma encosta fervilhante de vidas irreparáveis. Uma
cidade de fantasmas.
Quem vai do Banco de Macau para as traseiras do Península
passa ali ao lado do Cemitério de Agramonte, e quem
faz esse caminho muitas vezes acaba por pensar um dia “Porra,
à beira do passeio, tão perto!”. É
que há cem anos, já o senhor tantos de tal
ali passara a pensar o mesmo, esse senhor que agora jaz
na eterna paz do senhor com o sentimento da mulher e filhos
Fulana, Sicrano e Beltrano, a dois metros do transeunte.
E então assalta-nos “Porra, hei de vir conhecer
o frio da terra aqui no meio do alvoroço de todas
as três da tarde da Boavista, no meio das cargas e
descargas de todo o sempre. Tantos ossos como os do condutor
do oitenta e quatro que vai para Santo Ovídeo, só
que deitado, imóvel, sem um café, sem um cigarro,
sem tosse.”.
Ou então, vai-se um dia pela Marechal, e ao ver a
placa no meio das árvores “Fundação
de Serralves” pensa-se “Vivo nesta cidade há
vinte anos e só fui uma vez aos jardins de Serralves,
ando a comer pipocas gordas aos domingos em Santa Catarina
e nem me lembro que isto existe, ando na bicha da ponte
de Leça a ver passar navios ao sábado à
tarde e nem a lembrança dos patos que grasnam sossegados
no repouso do lago!”.
É que na rua ninguém existe. Quase ninguém.
As pessoas do Porto têm medo que o céu lhes
caia em cima. Correm aflitas de casa para o café
e do café para o trabalho e do trabalho para o café
e do café para o restaurante e do restaurante para
casa. A rua é uma chatice. Um perigo. Assaltos, prostitutas,
arrumadores de carros, o trânsito, qualquer coisa
serve. Mas as pessoas têm medo é do céu,
como se chovesse. E é a essa hora da noite em que
ninguém está na rua (quase ninguém)
que o circo começa. A orquestra desafinada introduz
”Senhoras e senhores, o malabarista!” e vem
magro de fome o Zé Camandro que arruma carros no
Covelo a agitar os braços para ninguém, só
para não ter de pensar, de cigarro na orelha a agradecer
as palmas; “Os leões!”, e eis que sai
debaixo dos cobertores de cartão um rei da selva,
na arcada da Livraria do Estado, a rosnar um bocejo de pata
estendida a pedir moedas; “O equilibrista!”,
de braços abertos, desce os Aliados, como se uma
corda de vinho lhe engelhasse os pés, o bêbedo
Jaquim cantarolando o último fôlego para ir
caír na rede do túnel lá em baixo.
Cidade de fantasmas, dizia. Pois é, e medo da chuva.
Um destes dias, li num panfleto “Há guerra
na Bósnia; há vacas loucas em Londres; há
bombas em Belfast; HÁ FESTA NO RIBEIRINHA!”.
Como se pode ver, absolutamente fantasmagórico. Não
que fosse mentira!— apenas uma forma peculiar da verdade…
E é neste forno que se coze a frágil porcelana
dos dias virtuais do Porto. L
VASCO SOARES BARRETO
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| Foi
lindo e rápido |
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Lourenço Ventura, assim se chamava. O melhor amigo
de qualquer um. Tipo porreiro, melhor dizendo, um tipo formidável,
na aldeia era conhecido pelo «Lourenço que
conduzia as carreiras para o outro lado da ponte»,
pulso firme, o gajo, as velhotas não confiavam em
mais nenhum, nas curvas era canja, um sorriso todo aberto,
uma guinada joia no volante, senhor, era como se tudo fosse
a eito, passavam-se as velhotas, perdoavam-lhe as patilhas
à «hipe», umas senhoras patilhas, atenção,
que qual Elvis qual carapuça (e os dentes do meio,
onde é que eles estão?), senhor, era um fartote,
não importava se acolá não houvesse
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