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O comboio progride nos carros, asinha,
contra o milénio ao fundo doo túnel.
Vou nele mais os 23 anos que tenho e agora me pesam como
uma mochila vazia.
Paguei o passe com o dinheiro do meu trabalho e, portanto,
não devo recear se o revisor vier à minha
beira a perguntar se existo.
Dir-lhe-ei que sim mostrando o bilhete de identidade (um
pouco desfeito nos cantos) e , acto contínuo, entarei
descansar reclinando a cabeça sobre os frios bancos
de napa cinzenta.
Sei, contudo, que os pensamentos que agora me inquietam,
daqui a pouco, quando o revisorvier, e depois, quando se
for, sei, digo, não me vão conceder a facilidade
de um breve minuto de sono.
agora que o comboiodobra a última curva do milénio,
dobram também, contumazes, os meus pensamentos como
sinos, e este ruído que vibra,bem o sei, será
razão para fazer duas vigílias e sacrificar
toda a minha inocência.
Pergunto a um militar sorridente que vai ao meu lado se
sabe qual o destino da composição. Não
sabe, quem sabe?
Olho pelo vidro da janela, vejo-me do aveso, reflectido
e, fora, o imenso escuro que me reflecte. Eu também
não sei.
O que eu sei é querer que alguém me espere
quando chegar.
E se me ama.
Isto eu sei.
PAULO CAMPOS DOS REIS
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